A hegemonia do liberalismo ruiu e o iliberalismo emergiu como alternativa competitiva, afirma a cientista política Marlene Laruelle. A demanda por líderes fortes que ignoram freios institucionais não é acidente de percurso — é resposta a promessas quebradas. O que vem a seguir depende de uma reinvenção que ainda não aconteceu.
Diretora do Programa de Estudos sobre o Iliberalismo na Universidade George Washington, Laruelle mapeia cinco pilares que definem essa nova proposta política. Não se trata de retórica populista, mas de ideologia estruturada com lógica própria.
Os cinco pilares do projeto iliberal
Laruelle identifica componentes que, juntos, compõem uma plataforma coerente:
- Majoritarismo radical: vontade da maioria acima de freios e contrapesos institucionais
- Soberania absoluta: rejeição a instâncias supranacionais e tratados multilaterais
- Política externa antiordem: confronto deliberado com a arquitetura liberal internacional
- Homogeneidade nacional: oposição ao multiculturalismo em nome de identidade única
- Valores conservadores: barreira contra agendas progressistas em costumes e moral
Quando esses cinco elementos convergem, deixa de haver dúvida: está diante de um projeto iliberal plenamente formado.
Por que a promessa liberal quebrou
Três frentes explicam o colapso da hegemonia iniciada há três décadas, pós-queda do Muro de Berlim.
Na economia, o vínculo entre crescimento e justiça socioeconômica se rompeu. Trinta anos de expansão global vieram acompanhados de desigualdade crescente em praticamente todas as latitudes. A promessa de que o bolo cresceria para todos não se cumpriu.
No terreno cultural, a neutralidade institucional — pressuposto do liberalismo clássico — cedeu espaço a uma agenda progressista percebida como impositiva. Parte relevante do eleitorado reagiu buscando refúgio em valores tradicionais.
O terceiro vetor é estrutural: a atomização social acelerada por redes sociais. Individualismo extremo, desconfiança na ciência, no jornalismo, nas instituições. O tecido que sustentava o consenso racional se desfez.
A crise de imaginação que beneficia a extrema direita
Com o fim da Guerra Fria, o liberalismo convenceu a si mesmo de que não havia alternativa. Perdeu a capacidade de projetar futuros. Restaram ajustes tecnocráticos e gestão do Estado de bem-estar — nada que inspire maiorias.
O vácuo foi ocupado. Extrema direita e extrema esquerda monopolizaram a imaginação política, mas a esquerda tornou-se minoritária. A direita iliberal passou a ditar o horizonte: “não está escrito que tem de ser assim”.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
Religião como motor de mobilização política
O nacionalismo cristão funciona como interpretação iliberal da fé. Não se contenta com liberdade de culto — exige controle do espaço público, transformação do Estado em instrumento teológico único.
Quando o adversário deixa de ser oponente legítimo e vira inimigo metafísico, a democracia entra em zona de risco. A linguagem de “guerra espiritual” e “expulsar o mal” opera na fronteira entre retórica inflamada e convocação à violência — simbólica ou real.
Bolsonaro e Trump transitam permanentemente nessa linha divisória. A estratégia polariza, desacredita a oposição e enquadra o conflito como existencial: um lado deve vencer, o outro desaparecer. O oposto do jogo democrático.
O que observar daqui para frente
Laruelle é taxativa: a demanda por líderes iliberais veio para ficar. Não porque as pessoas rejeitem democracia, mas porque acreditam que ela funcionará melhor sob comando forte. O ciclo só se inverte se o liberalismoder romper com o neoliberalismo, renegociar o que significa ser progressista — identidade ou socioeconomia? — e apresentar um horizonte que reduza desigualdades concretas.
Até lá, o cenário internacional continuará disputado entre dois projetos incompatíveis. Para empresários e investidores, o sinal claro: instabilidade regulatória, tensões geopolíticas e redefinição de alianças comerciais não são conjunturais. São estruturais. Quem antecipar a nova gramática política ganha tempo de adaptação; quem apostar no retorno ao “normal” anterior perde posição.
