Credores e acionistas da Braskem aproximaram-se de um consenso para reestruturar uma dívida de US$ 11 bilhões (R$ 54,6 bilhões), mas a definição de quem garante a injeção de capital novo ainda impede o fechamento. O prazo final vence em 22 de novembro, embora a expectativa seja de definição antecipada.
Pela primeira vez no processo de recuperação extrajudicial, as propostas da petroquímica e do grupo de detentores de títulos convergiram para um aporte combinado inicial na casa de US$ 4 a US$ 5 bilhões. O diabo, no entanto, mora nos detalhes da governança e no bolso de quem vai pagar a conta.
O desenho das duas propostas na mesa
Ambos os lados concordam com a estrutura base: uma oferta subsequente de ações (follow-on) de US$ 2,25 bilhões, conversão de dívida em participação acionária e aporte dos controladores atuais — Petrobras e IG4 Capital. A divergência surge na origem do dinheiro.
- Proposta da Braskem: Credores convertem US$ 2,8 bi; acionistas e terceiros injetam US$ 1,2 bi no follow-on. Há previsão de aportes adicionais condicionados a metas em 2029 (até US$ 500 mi dos controladores e US$ 1,5 bi dos credores).
- Proposta dos Credores: Exigem que US$ 1,85 bi do follow-on sejam garantidos agora pelos controladores ou terceiros aprovados. Conversão imediata de US$ 1,85 bi em ações, com mais US$ 450 mi condicionados a 2029.
Por que a garantia antecipada virou o nó górdio
Os credores não querem repetir o impasse anterior, quando pediram US$ 3 bilhões em capital novo aos controladores e ouviram um “não”. Exigir o compromisso firme hoje — antes mesmo da ratificação do plano — transfere o risco de execução para Petrobras e IG4. Se um terceiro investidor aparecer para cobrir a fatia, precisará do aval prévio dos detentores de títulos.
Essa trava protege os credores contra uma diluição indesejada ou um follow-on fracassado, mas aumenta a pressão sobre a estatal e o fundo de private equity para definirem estratégia: colocam dinheiro próprio, buscam sócio ou aceitam perder controle?
Controle e gestão: o que não muda (por enquanto)
No cenário desenhado pela Braskem, a gestão e o controle permanecem com a dupla Petrobras/IG4. O silêncio das duas partes nas últimas rodadas de questionamentos sinaliza que a negociação entrou na fase decisiva, onde cada vírgula contratual tem valor de mercado.
Vale lembrar: a recuperação extrajudicial foi protocolada em agosto justamente para evitar o fantasma da recuperação judicial. O plano original deixava em aberto montante, estrutura e cronograma do aporte — lacunas que agora estão sendo preenchidas sob pressão do calendário.
O que observar nas próximas semanas
O relógio corre até 22 de novembro. Se o acordo sair, a Braskem ganha fôlego financeiro e evita a judicialização, mas estreia uma estrutura acionária mais pulverizada e condicionada a metas futuras. Se travar, o pedido de recuperação judicial volta à mesa como única alternativa — cenário que costuma destruir valor para todos os lados.
Para o investidor, o termômetro está na capacidade de Petrobras e IG4 honrarem a garantia exigida pelos credores antes da assembleia. A assinatura desse cheque — ou a apresentação de um terceiro aprovado — será o sinal definitivo de que a reestruturação saiu do papel.
