Economia

O plano de Trump para baratear a carne moída falhou? Números revelam a realidade

Carne moída crua em bandeja de supermercado com etiqueta de preço, simbolizando impacto de política comercial nos EUA
Preço da carne moída mal recuou apesar de cotas extras de importação autorizadas por decreto presidencial.

Três meses depois do decreto que abriu cotas extras para importar aparas bovinas, o volume real ficou muito abaixo do teto permitido e o preço da carne moída mal recuou. A medida, desenhada para aliviar o bolso do consumidor antes das eleições de meio de mandato, expõe um dilema: mexer na oferta sem resolver a estrutura de custos não move a agulha no varejo.

O que o decreto previa e o que realmente entrou

Em agosto, a Casa Branca autorizou a entrada de 300 mil toneladas métricas de aparas magras com tarifa reduzida ao longo de 90 dias — até 100 mil toneladas por mês entre setembro e novembro. A expectativa era injetar oferta extra justamente no insumo base do hambúrguer e da carne moída.

Os dados da Alfândega mostram outro cenário. Em setembro, entraram 37.486 toneladas, pouco mais de um terço da cota mensal. Até 19 de outubro, o acumulado do mês mal passava de 21.937 toneladas. O ritmo sugere que a janela de 90 dias deve fechar com menos da metade do volume autorizado efetivamente utilizado.

Parte dessa carne viria de qualquer forma

Economistas alertam: não dá para creditar ao decreto todo o volume que entrou. James Mitchell, da Universidade do Arkansas, aplicou dois modelos de contrafactual. Um aponta que 41% das importações de setembro ocorreriam naturalmente; o outro eleva esse percentual para 79%. Em ambos os casos, o adicional líquido provocado pela medida é modesto.

Para contextualizar: os EUA importaram 1,9 milhão de toneladas de carne bovina em 2023, majoritariamente da Austrália, Canadá, Brasil, México e Nova Zelândia. As 300 mil toneladas extras representavam, no papel, cerca de 16% do fluxo anual — mas só no papel.

Por que o desconto não chegou à gôndola

Trump afirmou ter “compromisso” de que a carne importada seria vendida com 25% de desconto. O problema é operacional: aparas importadas e nacionais são misturadas nos frigoríficos sem rastreabilidade individual. Ted Schroeder, da Universidade Estadual do Kansas, resume: “Assim que se começa a misturar, perde-se completamente a rastreabilidade da origem.”

Sem identificação, não há como o varejo aplicar desconto seletivo nem o consumidor saber se está comprando o produto “subsidiado”. O resultado prático: o preço médio da libra (≈ 454 g) de carne moída caiu 1,9% em setembro, de US$ 6,92 para US$ 6,79 — queda sazonal esperada pós-verão. Um ano antes, a mesma libra custava US$ 6,32.

Reação do campo e o risco de encurtar o rebanho

No dia do anúncio, o preço do gado vivo caiu 3,4%. Entidades de pecuaristas argumentaram que a ameaça de intervenção recorrente desestimula a retenção de fêmeas para reprodução. Ford Drummond, presidente da Associação de Pecuaristas de Oklahoma, advertiu: “Temo que estejam tentando resolver um problema de curto prazo com os preços da carne bovina e, com isso, acabem criando problemas de longo prazo para a oferta de gado.”

Os preços do gado se recuperaram nas semanas seguintes, sinalizando que o mercado não precificou um choque estrutural de oferta.

O que observar daqui para frente

Com a cota de 90 dias se encerrando em novembro, três variáveis definirão se haverá nova tentativa:

  • Estoques de gado nos EUA: o ciclo pecuário continua em fase de baixa; a recomposição do rebanho depende de decisões de retenção de novilhas que levam anos.
  • Preços no atacado de aparas magras: praticamente estáveis desde agosto, segundo Schroeder — indicando que a oferta extra não pressionou a ponta da cadeia.
  • Calendário político: a pressão por alimentos mais baratos tende a voltar em 2026, mas qualquer nova medida esbarrará na mesma limitação logística e de rastreabilidade.

Para o empresário do setor de alimentos ou o investidor em commodities, a lição é clara: intervenções pontuais na tarifa de um insumo misturado, sem mecanismo de repasse garantido, geram ruído político, mas impacto econômico marginal. O ciclo da pecuária segue ditando o preço real da carne moída.