O atacante Richarlison acusa o senador Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz de usarem influência política para tomar uma mansão em Angra dos Reis avaliada em milhões. A disputa, que parou no STJ, envolve pagamentos a uma viúva de 78 anos e decisões judiciais contraditórias que deixam o futuro do imóvel incerto.
O caso explodiu nas redes sociais dias antes do segundo turno de 2022, mas os desdobramentos recentes mostram que a briga está longe do fim. Entender os bastidores dessa negociação revela como disputas possessórias de alto valor funcionam no Brasil.
O investimento que virou pesadelo judicial
Em 2020, a empresa Sport 70, ligada ao jogador, aportou cerca de R$ 10 milhões na aquisição de direitos possessórios da mansão na Ilha Comprida. Desse total, R$ 4,66 milhões foram pagos diretamente a antigos ocupantes, segundo documentos exibidos pelo atleta. O restante cobriu reformas e segurança privada.
A negociação ocorreu com anuência judicial inicial. No entanto, a regularização definitiva junto à Secretaria do Patrimônio da União (SPU) travou. Um pedido protocolado em setembro de 2021 permaneceu parado por quase dez meses.
A velocidade suspeita do lado rival
Enquanto o processo do jogador empacava, uma solicitação vinculada ao grupo de Willer Tomaz foi concluída em um único dia, em julho de 2022. Essa discrepância de tempo é o cerne da acusação de Richarlison: “Como eu não quis vender, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça”, declarou em vídeo.
Os principais pontos de divergência documental são:
- Valores declarados: Richarlison fala em R$ 4,66 milhões a posseiros; a Sport 70 declarou R$ 2,6 milhões nos autos.
- Legitimidade dos vendedores: Tomaz afirma que o jogador negociou com quem não era “proprietária de direito”.
- Assinaturas contestadas: Uma ocupante de 78 anos alegou coação e falsificação de assinatura.
O que o STJ decidiu e por que o processo acabou arquivado
Em junho de 2025, o Superior Tribunal de Justiça manteve entendimento favorável à empresa de Willer Tomaz. Meses depois, em outubro, a ação principal foi extinta sem julgamento de mérito. O motivo técnico: divergência interna entre os sócios da M Locadora (autora da ação de reintegração de posse) sobre se a empresa ainda ocupava o imóvel desde 1990.
Com a extinção, o juiz Ivan Pereira Mirancos Junior permitiu apenas a continuidade de um pedido reconvencional da Sport 70 contra a M Locadora. O processo foi definitivamente arquivado em 23 de janeiro de 2026, sem definir quem tem a posse nem reconhecer fraude processual.
Conexões políticas e investigações paralelas
O pano de fundo vai além da disputa imobiliária. Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz são investigados no STF por suspeita de lavagem de dinheiro. A Polícia Federal aponta que o senador era “usuário master” de conta bancária de empresa do advogado e ambos viajaram em aeronave ligada a Daniel Vorcaro. Ambos negam sociedade ou irregularidades.
Flávio nega participação na disputa da ilha, alegando ter sido apenas testemunha arrolada pelo ex-deputado Alencar da Silveira Júnior — sócio do próprio Richarlison na Sport 70. Essa conexão direta entre o “acusador” e a testemunha de defesa adiciona uma camada de complexidade rara ao caso.
O que observar daqui para frente
Richarlison promete seguir na Justiça para recuperar o imóvel ou os valores investidos, com destinação parcial a um hospital em Nova Venécia (ES). Paralelamente, o coletivo Derrubando Muros pediu ao MPF a apuração de irregularidades na regularização do terreno de marinha.
Para investidores e empresários, o caso serve de alerta: negócios baseados em direitos possessórios sobre terrenos da União exigem due diligence redobrada sobre a cadeia dominial e o trâmite na SPU. A celeridade processual de uma parte em detrimento de outra, mesmo com decisões transitadas em julgado, pode sinalizar riscos sistêmicos que nenhuma cláusula contratual cobre totalmente.
