Economia

Voto em papel: o inesperado salva-vidas das gráficas em 2026

Pilhas de santinhos políticos coloridos saindo de impressora offset em gráfica brasileira durante eleições 2026
A indústria gráfica cresceu 25% em 2026 impulsionada por 100 milhões de folhetos de um único partido.

A indústria gráfica brasileira fechou o ciclo eleitoral de 2026 com um fôlego que não via há anos: a receita saltou 25% na comparação com 2025, segundo a Abigraf. O motor foi a avalanche de santinhos, folhetos e encartes — um único partido encomendou 100 milhões de unidades de quatro páginas, volume suficiente para cobrir 63% do eleitorado nacional.

Mas por que o papel venceu o digital justamente na eleição mais conectada da história? A resposta não é óbvia e muda o jogo para quem investe no setor.

O colchão de caixa para 2027

O crescimento chega após um primeiro semestre de 2025 em que a produção física encolheu 4,3%, puxada pela queda de 7,1% nas atividades de impressão tradicional (revistas, livros, impressos de segurança). A pandemia deixou uma cicatriz funda: queda de 25% na produção total em 2020 e recuo de 38,7% no núcleo de impressão, perdas nunca totalmente recuperadas.

Muitas gráficas migraram para embalagens, rótulos e catálogos para sobreviver. A enxurrada de material de campanha funcionou como um “socorro de emergência”, garantindo caixa para os primeiros meses de 2027.

Por que o eleitor ainda confia no papel?

Dirigentes do setor e cientistas políticos apontam três fatores convergentes:

  • Desconfiança no WhatsApp: partidos relataram que eleitores passaram a duvidar de mensagens recebidas por aplicativos; o impresso passou a ser visto como “mais confiável”.
  • O voto por números: com cinco cargos em disputa (dois dígitos para presidente/governador, até cinco para deputado estadual), o santinho virou a única “cola” permitida — celular é proibido na cabine.
  • Fragmentação da disputa: a pulverização de candidaturas forçou campanhas a disputar voto a voto em territórios físicos, exigindo volume e capilaridade que só o impresso entrega de forma barata e imediata.

O gargalo da velocidade: só os grandes levaram

O boom não foi democrático. Campanhas exigiam entrega overnight: pedido às 19h, material pronto às 8h do dia seguinte. Gráficas de médio e pequeno porte, sem estrutura de três turnos e logística própria, ficaram de fora da festa.

Essa concentração de receita nas grandes plantas reforça a tendência de consolidação do setor — quem tem capacidade ociosa e turnos extras captura a margem; quem não tem, assiste.

O que observar daqui para frente

As eleições municipais de 2028 serão o primeiro teste de durabilidade. Se a lógica híbrida (digital para alcance, papel para conversão e lembrete de número) se confirmar como padrão, o setor ganha uma nova âncora de receita recorrente a cada dois anos.

Para investidores e gestores, a métrica-chave deixa de ser “volume de páginas” e passa a ser capacidade de resposta em janelas curtas. Quem investir em automação de acabamento, logística noturna e estoque de substratos estará posicionado para capturar a próxima onda — eleitoral ou não.