A Justiça Eleitoral determinou que a Meta Platforms não interfira na distribuição de conteúdo político às vésperas do segundo turno. A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva acusa a dona do Facebook, Instagram e WhatsApp de “repetida e sistemática” omissão na entrega de suas postagens aos eleitores. O desfecho pode definir quem comandará a maior economia da América Latina a partir de segunda-feira.
Pela primeira vez, uma big tech recebe ordem expressa para não manipular alcance político no Brasil. A medida atende a um pedido da coligação petista, que protocolou relatórios técnicos apontando falhas seletivas nos algoritmos. Parlamentares dos Estados Unidos e a ONU endossaram a cobrança por transparência.
O que a campanha denuncia — e os números por trás
Segundo a equipe de Lula, três frentes de problema ocorreram simultaneamente nas últimas semanas:
- Interrupções no canal “Exército de Lula” no WhatsApp, que reúne mais de 10 milhões de inscritos;
- Restrições de alcance em publicações no Instagram, com métricas inferiores às do adversário;
- Recusa da Meta AI em gerar imagens relacionadas ao presidente, enquanto produzia material favorável a Flávio Bolsonaro (PL).
A empresa rebateu em nota de 16 de outubro: alega falhas técnicas isoladas, sem viés político, e afirma ter corrigido os episódios. Mas a versão não convenceu a esquerda. Manifestantes foram à sede da Meta em São Paulo com máscaras de Mark Zuckerberg. Bernie Sanders e outros congressistas americanos enviaram carta ao CEO expressando “profunda preocupação” com relatos de supressão de conteúdo.
Por que o WhatsApp muda tudo
O aplicativo de mensagens está instalado em mais de 90% dos smartphones brasileiros. É a infraestrutura invisível da mobilização política: grupos de bairro, listas de transmissão, áudios de lideranças comunitárias. Qualquer instabilidade — real ou percebida — atinge a capilaridade da campanha.
Roberta Braga, diretora do Instituto para a Democracia Digital das Américas, resume: “Decisões da Meta, a falta delas ou erros que cometa acabam interferindo no processo eleitoral, dada a centralidade dos produtos no debate público”. Ela não vê intencionalidade, mas admite o efeito desestabilizador.
Déjà-vu com Musk e o precedente do X
O cenário ecoa o confronto de 2022 com Elon Musk. Naquele ano, ordens judiciais para remoção de contas e conteúdos considerados desinformativos levaram ao bloqueio temporário do X no país. A diferença agora: a Meta controla três plataformas dominantes, não apenas uma.
O Supremo Tribunal Federal discute há anos a responsabilidade civil das redes por discursos de ódio e fake news. A primeira-dama Janja da Silva chegou a xingar Musk em evento do G20 em 2024. A tentativa de insurreição de janeiro de 2023 — com plano para matar Lula, Alckmin e um ministro do STF — foi coordenada majoritariamente via aplicativos de mensagens.
Mudança de regras nos EUA e alinhamento com Trump
Em janeiro de 2025, a Meta extinguiu a moderação por terceiros nos Estados Unidos e adotou o modelo de “notas da comunidade”, copiado do X. A decisão coincidiu com a aproximação de Zuckerberg a Donald Trump, que chamou o Facebook de “inimigo do povo” após ser banido em 2021 e hoje o recebe na Casa Branca.
Trump não declarou apoio formal a Flávio Bolsonaro, mas manteve laços estreitos com Jair Bolsonaro e reuniu-se com o filho do ex-presidente no Salão Oval. Uma vitória da direita no Brasil reforçaria a estratégia hemisférica do republicano.
O que observar daqui para frente
Na quinta-feira, um juiz intimou Meta e X a prestarem explicações técnicas sobre seus papéis na eleição. O governo Lula negou vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado americano sob suspeita de questionar o sistema eletrônico de votação. Também acusou Javier Milei, da Argentina, de “tentativa inaceitável de interferência” após o líder argentino sugerir fraude.
Uma autoridade palaciana, sob anonimato, afirmou que Lula não deve contestar o resultado em caso de derrota — mas deve atribuir parte do revés ao ambiente digital desigual. A polarização, nas palavras de Braga, “está altíssima”. O que está em jogo não é apenas o domingo: é a definição de quem tem poder para modular o debate público na maior democracia do Hemisfério Sul.
