A indústria gráfica brasileira registrou salto de 25% no faturamento durante o período eleitoral, revertendo anos de retração e garantindo caixa para os primeiros meses de 2027. O movimento pegou empresários de surpresa em um setor que vinha encolhendo 4,3% ao ano.
Como um segmento ameaçado pela digitalização conseguiu faturar alto justamente na eleição mais digital da história? A resposta passa por desconfiança no WhatsApp, regras de votação e uma fragmentação partidária que mudou a geografia das campanhas.
O fôlego que ninguém previu
Fábio Gabriel dos Santos, dono da Leograf em Osasco e vice-presidente do Sindigraf-SP, manteve a fábrica rodando em três turnos. Um único pedido: 100 milhões de folhetos de quatro páginas para um partido que ele não revela. Volume suficiente para alcançar 63% dos 158,7 milhões de eleitores aptos, segundo o TSE.
Julião Flaves Gaúna, presidente da Abigraf, confirma o cenário: “Nesta eleição, a indústria ganhou um espaço para respirar. A busca por material impresso foi muito maior do que em pleitos anteriores”. A entidade estima que o caixa extra sustente operações até o primeiro trimestre de 2027.
Por que o impresso voltou a ser moeda forte
Três fatores explicam a virada, segundo relatos de partidos e especialistas ouvidos pelo setor:
- Desconfiança no digital: mensagens no WhatsApp passaram a ser vistas com ceticismo; o papel transmite legitimidade.
- Voto por número: com cinco cargos em disputa — presidentes e governadores (2 dígitos), senadores (3 dígitos), deputados federais (4 dígitos) e estaduais (5 dígitos) — o santinho virou “cola” indispensável.
- Proibição do celular na urna: o eleitor não pode consultar o telefone na hora do voto; o papel é o único apoio permitido.
Rodrigo Prando, cientista político da Mackenzie, resume: “Nenhum elemento de rede social cumpre a função de lembrete num pleito com tantos cargos”.
A fragmentação que inflou os pedidos
Além das regras, a disputa acirrada e pulverizada forçou campanhas a disputar voto a voto em seus territórios. Mais candidatos, mais materiais, mais tiragens. “As campanhas entregam o pedido às 19h e querem pronto às 8h do dia seguinte”, relata Santos. “Não é qualquer gráfica que consegue”.
O benefício não foi democrático. Gráficas de grande porte, com capacidade de logística noturna e impressão em alta velocidade, concentraram os contratos. Pequenas e médias ficaram à margem do boom.
O buraco que o papel tampou
O alívio chega após um histórico brutal. No primeiro semestre de 2025, a produção física do setor caiu 4,3%, puxada pelo tombo de 7,1% nas “atividades de impressão” — revistas, livros, impressos profissionais e materiais de segurança, o núcleo tradicional exposto à substituição eletrônica.
A pandemia agravou: -25% na produção total em 2020 e -38,7% nas atividades de impressão. A recuperação nunca veio. Desde então, empresas migram para embalagens, rótulos, etiquetas e catálogos — nichos onde o digital não substitui o físico.
O que observar daqui para frente
O ciclo eleitoral de 2026 injetou liquidez pontual, mas não resolveu a tendência estrutural. O caixa extra dura meses, não anos. Empresários do setor monitoram dois vetores: a migração definitiva para embalagens e rótulos — que já responde a fatias crescentes da receita — e a possibilidade de que a “confiança no papel” descubra novos usos comerciais além da política. Quem converteu o fôlego eleitoral em investimento logístico e diversificação de portfólio tende a liderar o próximo ciclo, eleitoral ou não.
