Saúde

Gestão humanizada: o caso no Onco Baixada que prova o valor da empatia

Paciente oncológica Isabelle Gomes se casando no Instituto Estadual de Oncologia da Baixada Fluminense com equipe multiprofissional
Isabelle Gomes realiza sonho de casar durante tratamento oncológico no Onco Baixada com apoio de equipe humanizada

Uma paciente em tratamento oncológico realizou o sonho de se casar dentro da unidade de saúde onde está internada, mobilizando uma força-tarefa multiprofissional no Instituto Estadual de Oncologia da Baixada Fluminense. O episódio, ocorrido na quinta-feira (22), expõe na prática como estratégias de humanização impactam diretamente a experiência do cliente e o engajamento das equipes.

Isabelle Gomes, 35 anos, cabeleireira, subiu ao altar ao lado do parceiro Vanderlei Martins, também com 35, diante de familiares, do filho do casal e de dezenas de colaboradores do hospital. A cerimônia não foi um improviso: fez parte de um projeto estruturado da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) para a realização de desejos de pacientes da rede estadual.

O fato: quando a operação para para atender o humano

A noiva estava internada desde o início do mês. A logística envolveu dia de noiva com maquiagem e penteado, decoração, celebrante e a coordenação de agendas clínicas para viabilizar o deslocamento até o local da festa. O marido chegou a pedir demissão do emprego para dedicar-se integralmente ao acompanhamento.

Segundo a direção da unidade, a iniciativa não é assistencialismo pontual, mas política pública contínua. A hipótese de gestão por trás dela é simples: ambiente acolhedor reduz tempo de internação, melhora adesão ao tratamento e diminui rotatividade de staff.

Impacto direto: métricas que não aparecem no balanço financeiro

Para gestores de qualquer setor, o caso traz lições tangíveis sobre cultura organizacional e employee experience:

  • Propósito compartilhado: profissionais de diferentes hierarquias (médicos, enfermeiros, equipe de limpeza, administrativos) atuaram em sincronia num objetivo não-clínico, fortalecendo coesão.
  • Marca empregadora: histórias como esta circulam internamente e externamente, atraindo talentos que buscam significado no trabalho — diferencial competitivo em mercados com escassez de mão de obra especializada.
  • Experiência do “cliente” (paciente): a humanização transforma o usuário passivo em protagonista da própria jornada, elevando NPS (Net Promoter Score) e reputação institucional.

Mas o efeito mais relevante aparece na saúde mental dos colaboradores que participam ativamente da entrega de valor emocional.

Contexto: a engenharia por trás da emoção

O projeto da SES-RJ prevê fluxo padronizado: acolhimento do desejo, avaliação de viabilidade clínica, captação de parceiros (voluntários, fornecedores) e execução com governança. Não há espaço para improviso que coloque em risco a segurança do paciente.

No Onco Baixada, a equipe multidisciplinar atua como um comitê de “sucesso do paciente”, adaptando protocolos rígidos de oncologia para caber momentos de vida. É gestão de exceção planejada, não caos.

Projeção: a humanização como ativo estratégico

Estudos internacionais já correlacionam programas de “dignidade conservadora” em oncologia com redução de sintomas depressivos e melhor resposta imunológica. No Brasil, a expansão desse modelo para outras especialidades — cardiologia, transplantes, pediatria — deve acelerar nos próximos ciclos de planejamento das secretarias estaduais.

Para o setor privado, o benchmark é claro: hospitais que institucionalizam a humanização deixam de ser “centros de custo” para se tornarem “centros de valor”, com reflexo em captação de convênios, acreditações (ONA, JCI) e fidelização.

O que observar daqui para frente

Líderes que desejam replicar esse ganho de engajamento — seja na saúde, varejo ou tecnologia — devem mapear: quais “desejos não declarados” dos meus stakeholders (clientes, funcionários, parceiros) podem ser transformados em projetos piloto de baixo custo e alto impacto simbólico? A resposta costuma estar na escuta ativa estruturada, não no achismo. O casamento de Isabelle e Vanderlei prova que, quando a operação serve ao humano, o retorno extrapola qualquer planilha.