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O segredo das palafitas: como Manaus chegou a 99% de água tratada

Rede de água flutuante em palafitas de Manaus, Amazonas
Tubulação flutuante leva água tratada às palafitas de Manaus, superando desafios da geografia amazônica.

Manaus atingiu 99% de cobertura de água tratada em 2026, mas o esgoto ainda deixa 58% da população descoberta. A meta de 90% até 2033 exige vencer a geografia mais complexa do país.

Foi nas palafitas e becos que a concessionária Águas de Manaus testou os limites da engenharia — e criou soluções que hoje servem de referência para cidades ribeirinhas em todo o Brasil.

A aposta que ninguém faria: rede flutuante

Quando a empresa assumiu a operação em 2018, encontrou 200 mil pessoas sem água encanada. A maioria vivia em áreas onde retroescavadeiras não entram: palafitas que sobem e descem com o Rio Negro, becos de 80 centímetros de largura, solos instáveis.

A resposta veio da observação. “Nossa rede fica ancorada nas passarelas. Quando o rio sobe, a passarela sobe e a rede sobe junto”, explica Pedro Augusto Freitas, diretor-presidente da concessionária. Hidrômetros instalados em pontos elevados, tubulações flexíveis, obra manual onde máquina quebra casa.

No Beco do Nonato, a tubulação de esgoto corre exposta sob as residências — não por economia, mas por necessidade. Enterrar canos ali abalaria as fundações. O modelo facilita manutenção e evita danos estruturais.

O efeito colateral que mudou vidas

Além da saúde, a conta de água virou documento. Para milhares de famílias, foi o primeiro comprovante de endereço da vida — porta de entrada para conta bancária, crédito formal, visibilidade cidadã.

A tarifa social de R$ 10 (água + esgoto) e a Tarifa Manauara com 50% de desconto garantiram adesão. Cadastro de mil lideranças comunitárias virou ponte entre operação e território.

Tecnologia contra o invisível

O índice de perdas caiu de 75% para 45% em oito anos. Dois vetores: regularização de ligações clandestinas e caça a vazamentos subterrâneos.

  • Satélite: não aponta o vazamento exato, mas reduz a área de busca em 80%
  • IA no centro de operações: monitora pressão, vazão e consumo em tempo real; alerta anomalias antes que virem rompimentos
  • Adaptação climática: captações aprofundadas e bombas móveis mantêm abastecimento mesmo nas secas extremas de 2023 e 2024

“Ninguém vive sem água. Regularizar o fornecimento é a melhor arma contra o gato”, resume Freitas.

O abismo do esgoto e o plano de 9 bilhões

Cobertura de esgotamento sanitário:

  • 2018: 16%
  • 2025: 40%
  • 2026: 42%
  • Meta 2033 (Marco Legal): 90%

O programa Trata Bem Manaus, lançado em 2024, prevê redes coletoras, ligações domiciliares e estações de tratamento distribuídas — não concentradas. A geografia impede grandes interceptores: igarapés, relevo acidentado, ruas estreitas ditam estações compactas espalhadas pela cidade.

O que está em jogo: os igarapés de volta

Moradores do Beco São Vicente e do Beco do Nonato relatam o mesmo fenômeno: igarapés que federam, viram esgoto a céu aberto, e agora mostram sinais de recuperação. Peixes voltando, cheiro diminuindo, banho possível.

“Na medida que a coleta e o tratamento avançam, os igarapés se recuperam naturalmente”, diz Freitas. A visão: devolver à cidade os balneários urbanos que existiam nos anos 70 — Tarumã, Tarumãzinho, Ponta da Bolívia — hoje interditados por contaminação.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem se a meta de 2033 sai do papel: ritmo de ligações domiciliares (a rede passa na rua, mas a casa precisa conectar), capacidade de tratamento acompanhar a coleta, e adesão populacional em áreas já atendidas. O satélite e a IA ajudam na operação; o desafio agora é comportamental e financeiro. Cada ponto percentual a mais de esgoto tratado significa um igarapé a menos agonizando no mapa de Manaus.