O subsídio de R$ 2,12 por litro ao diesel nacional expira nesta segunda-feira (26), véspera do segundo turno das eleições presidenciais, enquanto o barril do petróleo supera os US$ 116. A decisão sobre a prorrogação — que pode durar mais 30 dias — segue sem anúncio oficial, deixando o mercado em compasso de espera.
O tamanho do buraco na conta do importador
Mesmo com a subvenção total de R$ 3,52 por litro no diesel importado, o valor cobre menos da metade do custo real do produto lá fora. Segundo a consultoria StoneX, o litro do diesel importado está estimado em R$ 6,76.
Na prática, isso significa que quem traz o combustível de fora continua operando no vermelho. Nas refinarias da Petrobras, a defasagem em relação à paridade de importação atingia R$ 3,53 por litro na abertura de sexta-feira (23). Na média nacional, a diferença era de R$ 3,29.
Gasolina também sente o aperto, mas em escala menor
O cenário é menos dramático para a gasolina, embora a defasagem exista. Nos ativos da estatal, a diferença para o preço de paridade era de R$ 0,58 por litro. Considerando o mercado como um todo — incluindo importadores e refinarias privadas —, o gap cai para R$ 0,42.
- Diesel nacional: subsídio de R$ 2,12/litro (vencendo dia 26).
- Diesel importado: subvenção de R$ 3,52/litro.
- Gasolina: isenção de impostos federais equivalente a R$ 0,89/litro.
Risco de descumprimento da política de preços em 2026
Analistas do Itaú BBA alertam que a manutenção dessa defasagem elevada pode forçar a Petrobras a violar sua própria política de preços daqui a dois anos. “Nesse cenário, a companhia precisaria fazer aumentos adicionais de preço”, afirmaram em relatório divulgado no início da semana.
A estatal não mexe nas cotações de suas refinarias desde 17 de setembro, quando aplicou alta de R$ 1 por litro. A empresa costuma afirmar que só reajusta quando as cotações internacionais se consolidam em novos patamares, mas o silêncio atual aumenta a tensão.
O fator eleitoral e a fatura de R$ 32 bilhões
O timing não é coincidência. As medidas de contenção de preços foram desenhadas como alívio temporário, mas o cenário geopolítico não dá sinais de melhora. Até agosto, o governo já havia desembolsado R$ 32 bilhões para segurar os combustíveis. A justificativa do Planalto é a de que parte da receita extra com royalties do petróleo está sendo transferida diretamente ao consumidor.
Mas o efeito colateral já aparece: a incerteza sobre a continuidade dos subsídios pós-eleição levou importadores privados a adotarem postura conservadora. Ainda não há risco de desabastecimento, mas o volume programado para novembro é baixo.
Diesel russo volta ao radar e muda a equação
Uma variável nova entrou na conta recentemente. A Rússia, principal fornecedora brasileira nos últimos anos, havia saído do mercado para recompor estoques após ataques ucranianos às suas refinarias. Pressionada pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, a Rússia retomou as vendas externas.
Segundo Sérgio Araújo, presidente da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), há perspectiva concreta de chegada de diesel russo ao país nas próximas semanas. Isso pode aliviar a pressão de custo, desde que a logística e o câmbio cooperem.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o preço na bomba nas próximas semanas: a renovação (ou não) do subsídio de R$ 2,12, a reação da Petrobras à defasagem acumulada e o fluxo efetivo de diesel russo. Se o governo não prorrogar o benefício, o repasse imediato ao consumidor será inevitável, pressionando a inflação justamente no início de 2025. O mercado já precificou a incerteza; agora, espera a canetada.
