A PPG, gigante de revestimentos avaliada em US$ 24 bilhões, projeta triplicar suas vendas para data centers ainda este ano. O motivo? A corrida desenfreada por infraestrutura de IA transformou tintas cinzas — antes commodities esquecidas — em itens estratégicos de proteção contra fogo, estática e calor. Mas a farra tem prazo de validade.
O “marshmallow” que salva servidores de milhões
Em um laboratório blindado apelidado de “bunker” em Pittsburgh, químicos testam o Steelguard 951. Sob maçaricos, a camada de um milímetro infla para dez, virando uma crosta preta que isola o aço estrutural do calor extremo. “Funciona como um marshmallow tostado: o ar preso dentro mantém tudo frio”, explica o engenheiro Paul Fenton.
Não é estética. Data centers são ocupados por máquinas, não pessoas. A paleta se resume a cinza-claro, cinza e cinza-escuro. A função é pura física: evitar colapso estrutural em incêndios, bloquear interferência eletromagnética entre racks e dissipar eletricidade estática que fritaria chips.
Velocidade de obra dita a regra do jogo
Um data center sai do chão em um terço do tempo de uma obra de infraestrutura tradicional. Essa urgência forçou a PPG a criar equipes dedicadas apenas para “entrar na especificação” antes da primeira betoneira chegar. Se o revestimento não estiver na lista de materiais aprovados no projeto inicial, a porta se fecha.
A Sherwin-Williams, rival direta, confirmou que sua divisão de revestimentos de proteção cresceu na casa dos dois dígitos (faixa intermediária) no último ano puxada pelo mesmo vetor. A presidente Heidi Petz resume a estratégia: “Velocidade importa. Somos parceiro único do primer ao acabamento”.
Quanto custa pintar uma fábrica de inteligência?
O ticket médio por instalação varia entre US$ 3 milhões e US$ 8 milhões (R$ 15 mi a R$ 40 mi). Parece pouco perto do custo total, mas multiplicado por centenas de obras simultâneas, move o ponteiro de bilhões. O portfólio da PPG para o setor hoje cobre mais de 75 componentes diferentes:
- Pisos condutivos: drenam estática e previnem faíscas em salas de servidores;
- Pitt-Therm 909: isola tubulações de água gelada, impedindo condensação sobre equipamentos elétricos;
- Blindagem EMI: revestimentos que bloqueiam “crosstalk” entre máquinas adjacentes;
- Primers anticorrosão: para estruturas expostas e tubulações externas.
O mapa do ouro cinza: EUA concentram 10x o resto do mundo
Segundo o Artificial Intelligence Index Report de Stanford, os EUA abrigam cerca de 5.500 data centers — dez vezes mais que o segundo colocado. Mais da metade das oportunidades de venda da PPG está ali. No Brasil e na China a demanda existe, mas o volume financeiro real pulsa no território americano.
Hoje, o segmento ainda representa um “percentual de um dígito baixo” nas divisões industriais da PPG. A vice-presidente sênior Amy Ericson admite: “Certamente vai aumentar”. A expectativa interna é de crescimento “várias vezes” superior à média de outros mercados de infraestrutura nos próximos ciclos.
O gargalo que pode frear a tinta
Não é a falta de tinta que para a obra. É a falta de energia. Projetos estão paralisados esperando transformadores e capacidade de subestação — itens com lead time de anos. Some-se a isso a resistência comunitária local contra o consumo hídrico e elétrico desses complexos.
Para Ericson, o diálogo com comunidades e concessionárias cabe às big techs (Microsoft, Google, Amazon) e utilities. “Cabe a elas conduzir essas conversas”, disse. Enquanto a energia não flui, o cronograma de pintura — e o faturamento projetado — fica no compasso de espera.
O que observar daqui para frente
O termômetro real não está no balanço trimestral, mas na fila de conexão das elétricas. Se os gargalos de transformadores e licenciamento ambiental se dissolverem no segundo semestre, a projeção de triplicar vendas se sustenta. Se a fila travar, a “bolha cinza” esvazia antes do previsto. Acompanhe os anúncios de novas subestações e o ritmo de aprovação de licenças estaduais: eles ditam o ritmo da lata de tinta.
