O governo projeta um superávit primário de 1,6% do PIB em 2030, mas a Instituição Fiscal Independente alerta: seriam necessários 2,1% apenas para estabilizar a dívida. A diferença entre a meta e a necessidade real abre um buraco que ninguém está discutindo nas urnas.
Duas propostas opostas estão na mesa. De um lado, a promessa de um “tesouraço” de R$ 200 bilhões em um único ano. Do outro, um ajuste gradual de dois pontos percentuais do PIB espalhados por quatro anos. Ambas esbarram na mesma parede: compromissos sociais que não cabem no orçamento atual.
O número que ninguém consegue explicar
O ministro Dario Durigan foi direto na entrevista ao Uol: considerar um corte de R$ 200 bilhões em doze meses é “impossível”. Para atingir esse valor, seria necessário paralisar reajustes, extinguir programas e enfrentar resistências políticas que tornariam o governo ingovernável.
A proposta da campanha adversária prevê “equilíbrio fiscal, reforma do Estado, combate à corrupção e menos impostos” como pilares. O documento não detalha, porém, quais despesas obrigatórias — Previdência, saúde, educação, Benefício de Prestação Continuada — seriam reduzidas para abrir espaço ao corte prometido.
O que o relatório da IFI revela sobre 2027
O acompanhamento fiscal de junho, divulgado pelo órgão vinculado ao Senado, desenha um cenário duro. Confira os números que embasam o debate:
- Superávit necessário para estabilizar dívida: 2,1% do PIB ao ano
- Meta do governo para 2027: superávit primário (valor não especificado em percentual do PIB no orçamento)
- Trajetória projetada para 2030: superávit de 1,6% do PIB
- Déficit primário estimado para 2026: 0,4% do PIB
A conta não fecha. Mesmo se a meta de 2030 for cumprida, a dívida pública continuará crescendo — só que em ritmo mais lento. Para o investidor, isso significa juros altos por mais tempo.
O impacto direto no custo de capital
Enquanto a trajetória fiscal não convence, a taxa Selic permanece sensível a cada ruído. Analistas de mercado têm repetido: déficits consecutivos pressionam a curva de juros longos, encarecendo o funding para empresas e alongando o ciclo de investimento produtivo.
O ministro reconhece o elo: o objetivo do ajuste gradual é “conter a alta no endividamento para baixar a taxa de juros e promover melhora da economia”. A desaceleração recente da atividade econômica adiciona urgência — mas não resolve a equação matemática.
Os compromissos que travam qualquer tesoura
Três pilares de despesa são intocáveis nas duas propostas:
- Manutenção e reajuste real do Bolsa Família
- Salário mínimo com ganho acima da inflação
- Aposentadorias e pensões indexadas ao mínimo
Somados, esses itens consomem a maior fatia do Orçamento primário. Qualquer ajuste de magnitude — seja o “tesouraço” ou o gradualismo de dois pontos do PIB — precisa explicar de onde virá a economia se essas despesas seguem crescendo por regra constitucional ou legal.
O que observar daqui para frente
O calendário fiscal dos próximos trimestres será mais revelador que qualquer discurso de palanque. Acompanhe três variáveis decisivas: a execução orçamentária do segundo semestre — especialmente o comportamento das despesas discricionárias —, a reestimativa de receitas na próxima revisão bimestral e, principalmente, a sinalização do Banco Central sobre a trajetória da Selic diante do cenário fiscal projetado. Se o superávit de 2027 não aparecer no relatório de avaliação de receitas e despesas de novembro, o mercado precificará um prêmio de risco adicional muito antes de 2030.
