O Corinthians tem cinco dias para explicar o sumiço de R$ 10 milhões que deveriam alimentar seu plano de recuperação judicial. Se não o fizer, a blindagem que impede penhoras nas contas do clube pode ser revogada ainda este mês.
A administradora judicial Laspro, o Ministério Público de São Paulo e três credores já formalizaram cobranças. O silêncio da diretoria alvinegra sobre pagamentos atrasados e documentos não entregues acendeu o alerta máximo nos bastidores.
O que está em jogo não é apenas uma multa
O Regime Centralizado de Execuções (RCE) funciona como um escudo. Enquanto o clube cumpre as regras — destinando no mínimo 4% da receita ao pagamento da dívida de R$ 239 milhões —, contas não podem ser bloqueadas por credores individuais. Esse colapso permitiria que cada credor corresse atrás do seu, travando o dia a dia financeiro.
Em julho, o pagamento veio com atraso e incompleto. Em agosto, não veio. A soma dos dois meses chega aos R$ 10 milhões que agora motivam os ultimatos.
Os prazos que correm contra o clube
- 5 dias: prazo da Laspro para comprovação dos pagamentos e entrega de demonstrativos contábeis, relatórios gerenciais e extratos de agosto e setembro;
- 15 dias: prazo final do MP-SP para quitação, sob pena de revogação do plano e retomada das execuções individuais;
- Imediato: três credores já pediram o retorno dos bloqueios nas contas correntistas.
A promotoria foi dura ao classificar a conduta do Corinthians como “opacidade contábil” e alertou para risco de “degeneração” do regime. Não é retórica: a lei prevê a quebra da blindagem se houver descumprimento reiterado.
Dois pagamentos misteriosos aumentam a desconfiança
Além do calote atual, administrador e MP questionam duas operações anteriores. Em junho, o clube informou ter repassado R$ 26 milhões à Caixa, mas não apresentou comprovantes. Esse valor reduziu o montante disponível para os credores do RCE.
Outro ponto nebuloso envolve o fundo de investimentos criado para quitar a dívida com o Talleres pela contratação de Garro. Os valores pagos a esse fundo também carecem de detalhamento.
A resposta do clube não convence quem decide
Em nota oficial, o Corinthians afirmou que o RCE é prioridade e que “acompanha permanentemente a execução do plano”. Prometeu prestar esclarecimentos “formalmente nos autos” e ao administrador judicial “nos canais adequados”.
O problema: os canais adequados já foram usados — e ignorados. A Laspro relata e-mails sem resposta, documentos não enviados e uma lista de pagamentos no site do clube parada desde junho.
O que observar nas próximas semanas
Se o Corinthians não regularizar a situação nos prazos concedidos, a Justiça pode autorizar o retorno das penhoras individuais a qualquer momento. Isso significaria o fim da previsibilidade de caixa que o RCE garantia. Para credores, a corrida aos bloqueios recomeçaria. Para o clube, a gestão de receitas — incluindo cotas de TV, bilheteria e patrocínios — voltaria a ser alvo direto de ordens judiciais.
O próximo movimento depende de uma escolha: transparência total nos autos do processo ou o risco real de perder a única barreira que mantém as contas funcionando.
