Cultura

Se não tem no Google, tem aqui: bairro faz 115 anos e desafia a internet

Rua movimentada do bairro Alecrim em Natal com comércio popular diverso, celebrando 115 anos de tradição
O bairro Alecrim completa 115 anos mantendo comércio de rua vibrante que desafia o e-commerce com variedade e agilidade

O bairro do Alecrim, em Natal, completa 115 anos nesta sexta-feira (23) mantendo uma reputação que soa como desafio à era digital: “se não tem no Google, tem no Alecrim”. A frase, repetida por comerciantes e frequentadores, sintetiza a força de um centro comercial que movimenta mais de 3 milhões de pessoas por mês.

Mas por que um comércio de rua tradicional resiste — e cresce — enquanto o e-commerce avança? A resposta está na combinação de variedade extrema, agilidade de reposição e uma cultura de relacionamento que plataformas digitais ainda não replicam.

Números que explicam a vitalidade do comércio

Dados da Associação dos Empresários do Bairro Alecrim (AEBA), divulgados em junho, mostram 6.055 empresas ativas no perímetro do bairro. O crescimento supera 10% ao ano desde 2022. A circulação diária estimada passa de 100 mil pessoas.

O mix de ofertas explica parte do fluxo: shoppings, supermercados, mercado público, bancos, cartórios, órgãos públicos e lojas de dezenas de segmentos convivem no mesmo espaço. O camelódromo, com centenas de boxes, funciona como vitrine viva de tendências e necessidades imediatas.

A lógica da reposição instantânea

Jani Rocha, camelô há 25 anos, descreve o mecanismo: “Você chega hoje atrás de um produto, eu aviso ao fornecedor que está tendo muita procura e, de imediato, já se fabrica e já chega”. Esse ciclo curto entre demanda e oferta cria um estoque vivo, ajustado em tempo real pelo movimento das ruas.

Ronaldo Tavares, 70 anos, dos quais 62 no bairro, viu a transformação. “Eram casas de taipa, vilas. Loja praticamente não tinha nada”. Hoje, a avenida onde jogava bola na areia concentra fluxo que muitos shoppings invejariam.

Origem: da seca ao centro urbano

O historiador Henrique Lucena contextualiza: o Alecrim surgiu no século XIX com migrantes fugindo da seca. O nome vem do Cemitério do Alecrim — mais antigo que o bairro —, onde a erva era plantada sobre túmulos para “apaziguar os espíritos”.

Na década de 1940, a Vila Naval trouxe expansão da Marinha. O traçado de avenidas numeradas (Avenida Dois, Avenida Dez) foi definição do segundo prefeito de Natal, Omar O’Grady. A Praça Gentil Ferreira, a “Praça do Relógio”, segue como ponto de encontro e palco cultural.

Empreendedorismo como ato de fé

Maria Luiza dos Santos chegou aos 14 anos, em 1994. Passou por feira livre e camelódromo antes de abrir a própria ótica. “Ser empreendedor é um ato de fé. Abre as portas e vem com aquela fé que vai aparecer o cliente”, diz. Ela destaca que o bairro atrai consumidores não só de Natal, mas de todo o Rio Grande do Norte.

  • Feira livre: tradição que mantém clientela recorrente
  • Camelódromo: comércio popular no miolo da Avenida Dois
  • Localização central: acesso facilitado para diferentes regiões

O entrave que freia o potencial

O entusiasmo dos comerciantes não apaga as queixas. Falta de segurança, desorganização viária, ausência de estacionamento e limpeza precária aparecem em todos os depoimentos. “Deveria haver uma reorganização, ter possibilidade de estacionamento. Isso tira comércio”, afirma Maria Luiza, que relata queda no movimento e na economia local.

Jani Rocha resume: “Precisa de mais segurança, mais cuidado, mais conscientização das autoridades. O cliente sente necessidade disso”. Um projeto de revitalização do camelódromo, discutido em audiência pública, ainda não saiu do papel.

Identidade além do comércio

O Alecrim não é apenas vitrine. O Alecrim Futebol Clube, fundado em 1915, é o terceiro maior campeão potiguar (7 títulos) — atrás só de ABC e América. O Teatro Sandoval Wanderley, o “Teatrinho do Povo”, reabriu no ano passado após 15 anos fechado; nas décadas de 1960 e 1970, foi alternativa popular ao Teatro Alberto Maranhão, voltado à elite.

Esses marcos culturais reforçam o pertencimento. Comerciantes tratam o bairro como “casa”, “lar”. O apego emocional sustenta a permanência mesmo diante das dificuldades.

O que observar daqui para frente

A revitalização prometida do camelódromo e a resposta do poder público aos gargalos de infraestrutura definirão se o crescimento de dois dígitos se sustenta. Para investidores e empresários, o Alecrim oferece lição rara: densidade de demanda real, feedback imediato do consumidor e capacidade de adaptação de estoque que plataformas algoritmos ainda tentam igualar. Acompanhar os próximos editais de ordenamento urbano e os dados de fluxo mensal da AEBA será termômetro decisivo.