O Bradesco fechou a porta para o Desenrola 3. O CEO Marcelo Noronha foi direto: o programa do governo, que prevê compra de carteiras inadimplentes com desconto mínimo de 90%, não está no radar prioritário do banco. A declaração veio junto com um lucro líquido de R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre — número que veio em linha com as expectativas do mercado.
Mas há um detalhe que passa despercebido: a inadimplência subiu para 4,6% em setembro. O que isso significa para quem investe ou negocia com o banco?
Por que o maior banco privado do país ignorou o programa federal
Noronha explicou que a equipe analisou a medida e não viu mérito para “engajamento alto”. O argumento: o próprio mercado já oferece alternativas para gerenciar carteiras problemáticas sem depender de subsídio estatal.
O banco não vendeu carteiras de crédito recentemente. A estratégia passa por outro caminho: mudar o mix da carteira para perfis mais seguros, mesmo que isso signifique crescer menos em linhas como crédito pessoal sem garantia.
Os números que explicam a alta da inadimplência
O índice de atrasos acima de 90 dias subiu 0,3 ponto percentual no trimestre e 0,5 ponto em 12 meses. Três fatores pesaram:
- MPMEs com garantia federal: o pagamento da garantia demora mais após o inadimplemento, inflando o indicador temporariamente;
- Desaceleração econômica: o PIB deve crescer apenas 1% em 2027, contra 1,83% projetados para 2026;
- Comprometimento de renda das famílias: segue elevado, limitando capacidade de pagamento.
Noronha admite: “o mercado tem pressão no índice de inadimplência e no índice de crédito”. Mas reforça que a carteira atual é “muito mais controlada” que a de anos atrás.
Lucro sobe 14,6% no ano — mas o ROAE ainda não voltou ao topo
O resultado de R$ 7,1 bilhões representa alta de 0,8% frente ao trimestre anterior e 14,6% na comparação anual. O retorno sobre patrimônio (ROAE) está em 16% — ainda distante dos 20% vistos antes da pandemia.
Desde que assumiu em novembro de 2023, Noronha comanda uma transformação silenciosa:
- Foco em produtos mais rentáveis e menos arriscados;
- Investimento pesado em tecnologia;
- Redução da rede física: hoje são 1.741 agências;
- Troca de diretoria e reestruturação interna.
O que os analistas estão vendo (e o mercado precificou)
Às 11h34, as ações recuavam 2,18%, a R$ 19,78, enquanto o Ibovespa operava estável nos 204 mil pontos. O BTG Pactual aponta que “o ritmo de crescimento dos resultados subjacentes parece estar perdendo parte de seu ímpeto”. Já o Itaú BBA resume: “o cenário macroeconômico mais desfavorável claramente começa a cobrar seu preço”.
Noronha projeta expansão nos próximos trimestres, com lucro suficiente para absorver o custo de crédito maior. “Não significa que não se tenha lucro suficiente para pagar”, afirmou.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo do Bradesco nos próximos meses: a trajetória da Selic e seu impacto no custo de funding, a velocidade de recuperação das MPMEs garantidas pelo governo e a capacidade do banco de manter a originação em linhas seguras sem abrir mão de rentabilidade. O balanço do quarto trimestre será o teste real se a “carteira mais controlada” sustenta a promessa de lucro crescente em ambiente adverso.
RAIO-X | BRADESCO
- Fundação: 1943, em Marília (SP)
- Lucro líquido 3T26: R$ 7,1 bilhões
- Agências: 1.741
- Funcionários: 79 mil
- Clientes: 75 milhões
- Principais concorrentes: Banco do Brasil, Itaú, Santander e Nubank
