A OpenAI reduziu a meta de avaliação para sua nova captação de US$ 1,4 trilhão para US$ 1,25 trilhão, escancarando a resistência do mercado a pagar prêmios infinitos por inteligência artificial. A rodada, que mira US$ 30 bilhões, funciona como ponte para a estreia na bolsa prevista para 2027.
O corte de quase 11% no preço pedido revela um apetite mais frio do que o esperado. Mas a pergunta que fica é: isso é apenas um ajuste de rota ou o sinal de que o ciclo de euforia com IA está mudando de fase?
O fim da “corrida” pelos papéis da empresa
Documentos vistos pelo Financial Times mostram que o Morgan Stanley e o fundo Dragoneer apresentaram a operação a clientes de *wealth management* com a avaliação original de US$ 1,4 trilhão. A recepção, porém, foi morna.
Fontes próximas ao processo descrevem uma demanda “mais fraca que no passado”. Em rodadas anteriores, havia fila de espera; desta vez, não houve “corrida alguma”. O prazo para adesão dos investidores vai até 30 de outubro, e o valor final captado pode ficar abaixo dos US$ 30 bilhões almejados.
Fadiga do investidor e o “efeito Anthropic”
Dois fatores pesaram na decisão de baixar o preço. O primeiro é cansaço: a OpenAI captou US$ 40 bilhões em março de 2025 e US$ 122 bilhões em março deste ano. Muitos grandes nomes já têm exposição máxima ao ativo.
O segundo é a concorrência direta. A Anthropic levantou quase US$ 100 bilhões em 2024 e tem IPO previsto para o fim do ano. Investidores disseram ao FT que preferem esperar a precificação da rival antes de fechar posição na OpenAI.
- Valuation alvo anterior: US$ 1,4 trilhão (R$ 7 tri)
- Valuation acordado: US$ 1,25 trilhão (R$ 6,3 tri)
- Alta sobre valuation atual (US$ 852 bi): ~47%
- Meta de captação: US$ 30 bilhões (R$ 151,5 bi)
- Prazo para adesão: 30 de outubro
- IPO estimado: 1º semestre de 2027
O “direito de preferência” nos Emirados Árabes
Além do capital, a rodada traz um ativo estratégico. O acordo concede à OpenAI direito de preferência sobre nova capacidade computacional desenvolvida por parceiros nos Emirados Árabes Unidos.
Em um cenário onde *chips* e energia são os verdadeiros gargalos da expansão da IA, garantir acesso prioritário a infraestrutura no Oriente Médio pode valer mais que o desconto no valuation. Fundos dos Emirados e o grupo americano Coatue negociam a liderança da rodada.
Por que o mercado acionário todo está atento
Jimmy Chang, CIO do Rockefeller Global Family Office, resume a tensão: “O mercado precisa ver uma oferta pública inicial bem-sucedida. Essas empresas precisam de financiamento”.
A incerteza em torno dos IPOs da OpenAI e da Anthropic pressiona o setor de tecnologia como um todo. Se as duas maiores “unicórnios” de IA não conseguirem abrir capital a valuations sustentáveis, a precificação de todo o ecossistema de *venture capital* e *private equity* precisa ser revista.
O que observar daqui para frente
O fechamento desta rodada — e o valor efetivamente captado até 30 de outubro — será o termômetro mais preciso do apetite real por risco em IA generativa no curto prazo. Acompanhe também o IPO da Anthropic: seu *pricing* definirá o teto de referência para a estreia da OpenAI em 2027. Para quem gere carteiras ou decide alocação em *tech*, a mensagem é clara: o cheque em branco acabou; agora, a disciplina de capital dita o ritmo.
