O IPCA-15 desacelerou para 0,32% em outubro, bem abaixo da mediana de 0,45% projetada pelo mercado. A trégua nos preços, contudo, esconde um detalhe crítico: o acumulado em 12 meses furou o teto da meta do Banco Central.
O dado, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira (23), pegou analistas de surpresa ao ficar até mesmo abaixo do piso das estimativas (0,33%). Mas a comemoração antecipada pode ser perigosa para quem acompanha a política de juros.
O alívio que não chegou à mesa do brasileiro
Apesar da queda geral do índice — que veio de 0,70% em setembro —, o grupo de Alimentação e Bebidas voltou a acelerar. Itens básicos como hortifrúti e carnes impediram uma desaceleração mais robusta.
Na prática, o consumidor sente o peso no caixa do supermercado enquanto o índice cheio mostra “melhora”. Essa divergência explica parte da insatisfação capturada nas pesquisas eleitorais às vésperas do segundo turno.
- IPCA-15 outubro: 0,32% (projeção: 0,45%)
- IPCA-15 setembro: 0,70%
- Acumulado 12 meses: 4,62% (teto da meta: 4,50%)
Por que o teto da meta foi furado agora
O índice de referência para a meta oficial é o IPCA, não o IPCA-15. Porém, a prévia sinaliza que a inflação acumulada em 12 meses atingiu 4,62% em outubro, superando os 4,47% de setembro.
O centro da meta é 3%, com tolerância entre 1,5% e 4,5%. Estourar o teto por seis meses consecutivos configura descumprimento formal. O mercado já projeta IPCA a 5,22% para 2026, segundo o Boletim Focus.
Mas o efeito mais relevante aparece na condução da Selic nas próximas reuniões.
Juros: o que esperar das próximas decisões do Copom
A taxa básica segue em 13,75% ao ano desde setembro. O Comitê de Política Monetária tem dois encontros agendados ainda para 2024: nos dias 3 e 4 de novembro e 8 e 9 de dezembro.
O mercado precifica leve alívio à frente. A mediana do Focus aponta Selic a 13,25% no fim de 2026. Contudo, a resistência dos alimentos e o estouro da meta trazem incerteza para o ritmo de cortes.
Calendário e coleta: entenda a diferença para o IPCA oficial
O IPCA-15 mede preços entre 16 de setembro e 14 de outubro. Já o IPCA — usado oficialmente pelo BC — cobre o mês cheio de outubro e sai apenas em 12 de novembro.
Essa defasagem de divulgação faz da prévia um termômetro antecipado, mas não definitivo. O número final pode surpreender para cima ou para baixo dependendo do comportamento dos preços na segunda metade de outubro.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o cenário até a reunião de dezembro: a trajetória do dólar, a safra de alimentos nos próximos meses e a velocidade de transmissão dos juros atuais para a economia real. O IPCA cheio de novembro será o divisor de águas para calibrar a magnitude do primeiro corte da Selic.
