Uma empresa ligada a Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações no governo Bolsonaro, recebeu R$ 2,1 milhões da Starlink desde junho de 2025 por serviços de “monitoramento regulatório, análise de riscos e suporte estratégico”. O contrato foi firmado dois anos e meio após o fim da gestão que facilitou a entrada da operadora de satélites no Brasil.
Os pagamentos, que variam de R$ 129 mil a cerca de R$ 700 mil mensais, levantam questões sobre a fronteira entre atuação pública anterior e interesses privados posteriores. Faria não comentou, citando cláusula de confidencialidade.
O caminho da autorização
A proximidade entre Faria e a Starlink começou antes de qualquer contrato comercial. Em outubro de 2021, ainda no ministério, ele escreveu a Elon Musk propondo encontro nos Estados Unidos e mencionando uso da tecnologia em escolas e na Amazônia.
Em novembro daquele ano, Faria viajou aos EUA e reuniu-se com a direção da SpaceX e com o próprio Musk. O ministro anunciou então busca por parceria para conectar 19 mil escolas rurais, comunidades indígenas e monitorar a Amazônia.
O passo decisivo veio em junho de 2022, em audiência na Câmara. Faria relatou ter convocado videoconferência com os cinco conselheiros da Anatel para contestar a exigência de manifestação da Agência Espacial Brasileira — requisito que atrasaria a autorização.
“Do meu gabinete, fiz um Zoom com todos os conselheiros da Anatel presentes”, disse na ocasião. A autorização saiu em janeiro de 2022. Em maio, Faria organizou o encontro de Musk com Bolsonaro em Porto Feliz (SP).
Da porta giratória ao contrato milionário
Após deixar o ministério, Faria passou pelo BTG Pactual e depois abriu empresa própria. O contrato com a Starlink só surgiu em junho de 2025 — mais de três anos após a autorização da Anatel.
Os comprovantes abrangem outubro de 2024 a outubro de 2025. O maior valor único aproxima-se de R$ 700 mil; o mais recente, de outubro, é de R$ 129 mil.
- Junho 2025: contrato assinado
- Out 2024 – Out 2025: período coberto pelos comprovantes
- Serviços declarados: monitoramento regulatório, análise de riscos, suporte estratégico
Em 2024, Faria já havia atuado na Skylink, distribuidora dos serviços da Starlink, entre março e abril — cargo que deixou, segundo a Agência Pública, por possível conflito com sua atuação no BTG Pactual, ligado a infraestrutura de telecom.
Mensagens revelam tentativa de mediação com o STF
Conversas de abril de 2024, encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, mostram Faria e Vorcaro tentando intermediar diálogo entre Musk e o ministro Alexandre de Moraes. O contexto: decisões de Moraes para remoção de conteúdo no X (antigo Twitter) haviam gerado confronto público com o empresário.
A iniciativa não prosperou, mas expõe a manutenção de canais diretos entre o ex-ministro e o dono da Starlink mesmo após a saída do governo.
O que observar daqui pra frente
A relação entre a atuação regulatória de Faria no ministério e o posterior faturamento com a empresa beneficiada tende a alimentar debates sobre regras de quarentena e conflitos de interesse no setor de telecomunicações.
Não há indicação de irregularidade formal nos documentos obtidos. A Anatel afirma que a autorização coube à agência, não ao ministro. Ainda assim, o volume de pagamentos — concentrado em curto período — e a descrição genérica dos serviços (“suporte estratégico”) mantêm o tema no radar de órgãos de controle e do próprio mercado.
Para investidores e players do setor, o caso sinaliza como relacionamentos construídos na gestão pública podem se converter em contratos privados de alto valor anos depois, mesmo sem sobreposição formal de funções. Acompanhar eventuais questionamentos no TCU ou no Congresso será decisivo para entender se haverá reflexos regulatórios.
