O Brasil caminha para 2026 com um cenário contraditório: indicadores sociais de primeiro mundo convivem com uma trajetória fiscal de país em crise. O próximo presidente herdará uma nação com renda crescente e desemprego baixo, mas com o Orçamento sequestrado por juros da dívida pública.
A pergunta que fica é: como sustentar o avanço social sem quebrar a máquina pública? A resposta exige escolhas que nenhum candidato tem coragem de detalhar.
A origem do buraco: duas décadas de relaxamento
O desequilíbrio não nasceu ontem. Dados compilados pelo economista Vitor Wilher mostram que o esforço fiscal começou a ruir ainda no segundo mandato de Lula, após a crise de 2008. A média do superávit primário — a economia antes de pagar juros — despencou de 3,4% do PIB (2002-2008) para 1,5% (2009-2013).
Desde então, o uso de receitas extraordinárias mascarou o rombo, minando a credibilidade das metas. O resultado veio em 2014: fim dos superávits, disparada da inflação e a recessão mais profunda da história recente.
Juros devoram o Orçamento; investimentos estagnam
O professor Nelson Marconi (FGV) quantifica o estrago entre dezembro de 2008 e agosto de 2026, em valores reais:
- Despesa total (com juros): +128,5%
- Despesa primária (sem juros): +91,7%
- Gastos com juros: +320% (saltaram de R$ 260 bi para R$ 1,09 tri)
Hoje, a conta de juros equivale ao que se paga a 42 milhões de aposentados do RGPS. A fatia dos juros no gasto total pulou de 16,1% para 29,6%, enquanto a parcela primária (saúde, educação, Bolsa Família, funcionalismo) encolheu de 83,9% para 70,4%. Investimentos cresceram míseros 14,2% no período.
O ajuste inevitável que ninguém quer fazer
Para Marconi, o ajuste fiscal é obrigatório, mas a composição define o futuro. “Não se pode sacrificar infraestrutura e políticas de desenvolvimento”, alerta. Ele defende a revisão de incentivos tributários e o enfrentamento da pressão previdenciária — a reforma de 2019 aliviou, mas não estancou o crescimento desse gasto.
Enquanto técnicos pregam reorganização, a campanha eleitoral corre no sentido oposto.
Promessas de campanha adicionam R$ 100 bi à conta
Análise de Roberto Secemski (Barclays) estima que medidas recentes do governo Lula custarão mais de R$ 100 bilhões nos próximos anos. Só em 2027, o impacto supera R$ 40 bilhões entre expansão de benefícios, subsídios a combustíveis, Pé-de-Meia e apoio a microempreendedores.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro promete mais gastos, embora sua equipe admita nos bastidores a necessidade de um ajuste de 2% do PIB (R$ 250 bilhões). Lula, por sua vez, classificou a volta dos superávits como “babaquice”.
Partindo de um déficit primário estimado em 0,5% do PIB em 2026, o esforço necessário supera 2,5 pontos percentuais do PIB — cerca de R$ 320 bilhões entre corte de despesas e alta de receitas. O Brasil não entrega superávit primário efetivo de 2% há muito tempo.
O outro lado da moeda: ganhos sociais reais
Ignorar os avanços recentes, porém, seria análise incompleta. Levantamento de Marcos Hecksher e dados do IBGE/FMI mostram um Lula 3 com resultados expressivos:
- Poder de compra: alta média de 5,4% ao ano (2023-25) contra queda de 1,4% no governo anterior.
- Pobreza: recuo de 8,6 pontos percentuais em três anos; extrema pobreza caiu 3 pontos. No governo Bolsonaro, a queda somada foi de 1,8 ponto.
- Desemprego: caiu de 8% para 6% (2023-25), na contramão de EUA (alta para 4,3%) e Argentina (alta para 7,4%).
- PIB: crescimento médio de 3% ao ano, superando EUA (2,7%) e América Latina (2,4%).
- Varejo: supermercados +11,5% e comércio +9,5% (Lula 3) vs +3,8% e +5,5% (Bolsonaro/pandemia).
- Amazônia: desmatamento caiu pelo 4º ano seguido, de 9.100 km² (2023) para 3.300 km² estimados (2026).
O que observar daqui para frente
Desempenho econômico e equilíbrio fiscal são variáveis independentes. O desafio do próximo mandato não é ideológico, mas aritmético: preservar a renda e o emprego sem permitir que a dívida — projetada em 83,4% do PIB — consuma todo o espaço fiscal via juros.
Quem vencer terá de explicar ao eleitor de onde virão os R$ 300 bilhões anuais de ajuste. Sem essa resposta, o paradoxo de 2026 vira crise de 2027.
