Uma parceria entre uma empresa americana de infraestrutura para inteligência artificial e uma desenvolvedora paraguaia prevê usar energia de Itaipu para alimentar data centers no Paraguai. O movimento tende a reduzir o excedente que hoje abastece o mercado brasileiro. A primeira fase deve entrar em operação em meados de 2027.
O Brasil não participou das negociações. Especialistas alertam: a fatia paraguaia ociosa — hoje cerca de 26% da metade que lhe cabe no tratado — deve encolher ainda mais. Mas qual será o impacto real na conta de luz e na segurança energética do Centro-Sul?
O tratado e a conta que mudou
Pelo Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm direito a 50% da produção cada um. A cláusula prevê que a energia não usada por um lado seja ofertada ao outro. Historicamente, o Paraguai consumia parcela mínima e vendia o resto ao Brasil.
Esse cenário virou. Nos últimos anos, o consumo paraguaio saltou para aproximadamente 74% da sua cota. O excedente caiu para 26%. A chegada de mineradoras de criptomoedas a partir de 2021 e 2022 acelerou a virada.
O novo consumidor: data centers de IA
O acordo anunciado envolve a Crusoe (EUA) e a Araico (Paraguai). A estrutura processará dados para clientes americanos e latino-americanos. O volume de energia a ser contratado não foi divulgado.
Victorio Oxilia, doutor em Energia e professor na Universidade Nacional de Assunção, resume a tendência:
“O que dá para prever é que talvez a quantidade disponível de energia para o Brasil diminua bastante. É muito difícil que suma totalmente, mas vai diminuir bastante.”
Por que o Anexo C fica mais complexo
O Anexo C do tratado define regras financeiras e de comercialização, incluindo a compensação pela energia cedida. Com novos grandes consumidores no lado paraguaio, as renegociações ganham variáveis inéditas.
Tomaz Espósito, professor de Relações Internacionais na UFGD, aponta:
- Negociações do Anexo C tornam-se mais complexas
- Possibilidade real de redução da oferta ao mercado brasileiro no curto prazo
- Itaipu segue estratégica para o abastecimento do Centro-Sul
Brasil tem lastro, mas perde reserva estratégica
Os dois especialistas concordam: não há risco de desabastecimento imediato. O sistema elétrico brasileiro é diversificado — hidrelétricas, eólica, solar, termelétricas e nuclear compõem a matriz.
Oxilia classifica o impacto como “mínimo” diante do tamanho do parque gerador nacional. Espósito faz a ressalva: a energia de Itaipu é firme, previsível e bem localizada para o Centro-Sul. Perder parte dela significa depender mais de fontes intermitentes ou de transmissão de longa distância.
O que mais está na mesa
O pacote EUA–Paraguai vai além de data centers:
- Uranium Energy Corp.: US$ 12 milhões em exploração de urânio
- Segurança aérea: acordo para interceptação de voos suspeitos
- Antiterror e fronteiras: US$ 5,5 milhões em assistência
- Crime organizado: US$ 6,25 milhões em cooperação bilateral
- Nuclear civil: negociações para acordo de uso pacífico
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o tamanho do impacto no Brasil: o volume de energia efetivamente contratado pelo projeto Crusoe–Araico; a velocidade de novos empreendimentos eletrointensivos no Paraguai; e o desfecho da revisão do Anexo C, prevista para 2026. Enquanto isso, o operador do sistema nacional (ONS) já incorpora cenários com menor disponibilidade de Itaipu nos estudos de expansão. A conta de luz não deve refletir efeitos diretos no curto prazo — mas a perda de uma reserva firme no Centro-Sul cobra seu preço na margem de segurança do sistema.
