O governo federal deflagrou uma megaoperação para conter o avanço do fogo no oeste do Pará, destinando 522 brigadistas, 13 aeronaves e uma injeção imediata de R$ 300 milhões via medida provisória. A escalada levanta dúvidas sobre a capacidade de contenção na fronteira agrícola mais pressionada da Amazônia.
O anúncio ocorreu nesta quinta-feira (22), mas a pergunta que fica é: o aparato logístico será suficiente para reverter um cenário onde o fogo já atinge 76 municípios simultaneamente?
A anatomia da operação: números e logística
O efetivo reúne agentes do Ibama e do ICMBio, apoiados por 41 veículos terrestres. A força aérea conta com seis aviões Air Tractor — especializados no lançamento de água — baseados em Santarém, além de outras sete aeronaves de apoio.
O teatro de operações concentra-se na região do Chapadão, na divisa entre Santarém e Uruará, área cortada pela PA-370 e pela Transamazônica (BR-230). A proximidade de eixos rodoviários estratégicos facilita o deslocamento, mas também expõe a dinâmica de ocupação do solo.
O epicentro: 2.991 focos em uma semana
Dados do Inpe revelam a magnitude do desafio: apenas entre 14 e 20 de outubro, satélites registraram 2.991 focos de calor no estado, um acréscimo de 610 pontos em relação ao período anterior. Ao todo, 321 eventos de fogo ativos estavam mapeados na data do anúncio.
Sessenta e dois incêndios florestais confirmados atingem especificamente a zona do Chapadão, abrangendo também o município de São Félix do Xingu — um dos maiores rebanhos bovinos do país.
- 522 brigadistas federais em campo
- 13 aeronaves (6 Air Tractor + 7 apoio)
- R$ 300 milhões em crédito extraordinário (MP 1398/26)
- 16 municípios em situação de emergência decretada
- 7 pedidos de reconhecimento federal pendentes
Investigação criminal e o entrave fundiário
O Ministério do Meio Ambiente aponta que as chamas se alastram prioritariamente sobre invasões irregulares em assentamentos da reforma agrária e reservas legais. Há indícios de uso intencional do fogo como ferramenta de manejo ilegal da terra.
A Força Nacional de Segurança foi acionada após relatos de obstrução ao trabalho das brigadas. Embora o ministro João Paulo Capobianco evite cravar a intencionalidade criminosa, a Polícia Federal já investiga a hipótese de ação coordenada para promover queimadas.
Esse componente de segurança pública adiciona uma camada de complexidade: não basta apagar o fogo, é preciso garantir a integridade de quem combate e a cadeia de custódia das áreas afetadas.
Emergência fiscal: a MP de R$ 300 milhões
Ontem (21), o Planalto encaminhou ao Congresso a Medida Provisória 1398/26, abrindo crédito extraordinário no Orçamento de 2026. O valor destina-se a ações da Defesa Civil em todo o país, com ênfase na Amazônia.
A justificativa técnica cita a estiagem severa provocada pelo El Niño, que expandiu a área sob seca moderada a grave. A capacidade limitada de resposta dos municípios — muitos sem estrutura própria de combate — tornou o aporte federal indispensável para agilizar repasses.
O que observar daqui para frente: seca, safra e carbono
O Pará lidera o ranking nacional de ocorrências segundo a plataforma Queimadas do Inpe, posição que expõe ativos florestais, cadeias produtivas do agronegócio e projetos de carbono a riscos crescentes. A janela climática segue adversa: a previsão de chuvas regulares só deve se consolidar a partir de novembro.
Para investidores e gestores de risco, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a execução orçamentária da MP 1398/26, o desfecho dos inquéritos policiais sobre a origem criminosa e a evolução do índice de seca nos municípios que ainda não decretaram emergência. A capacidade de resposta do Estado nos próximos 30 dias ditará a extensão dos prejuízos ambientais e econômicos na fronteira amazônica.
