Os irmãos Joesley e Wesley Batista decidiram carimbar o passaporte para o setor nuclear brasileiro meses antes de concluir a aquisição da fatia da Eletronuclear. O grupo J&F, por meio do family office Globe Investimentos, acaba de assumir o patrocínio master do Nuclear Legacy, principal evento da indústria, marcado para 9 de novembro na Escola Naval do Rio de Janeiro.
A jogada sinaliza ao mercado que a entrada no segmento não depende apenas da canetada final do negócio com a antiga Eletrobras. Mas qual o real peso desse movimento para quem acompanha a reconfiguração do setor elétrico?
O fato: patrocínio de peso em evento estratégico
O Nuclear Legacy é promovido pela ABDAN (Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares) e costuma reunir ministros, parlamentares, CEOs de estatais e privadas, além de especialistas internacionais. A edição deste ano terá palestra magna de Chris Adamski, analista líder de nuclear da BloombergNEF.
O valor do aporte não foi divulgado. A exposição da marca Âmbar Energia — braço de geração da J&F — diante de um público tão qualificado funciona como credencial antecipada. Em um setor onde licenças, financiamento e articulação política caminham juntos, visibilidade não é detalhe.
Impacto direto: a peça que falta no quebra-cabeça da Âmbar
A Âmbar já controla portfólio relevante em termelétricas a gás, hidrelétricas e solar. Faltava a nuclear para fechar a equação de oferta firme, despachável e de baixo carbono — ativo cada vez mais valioso no mercado livre e nos leilões de reserva de capacidade.
A aquisição da participação da Axia Energia (ex-Eletrobras) na Eletronuclear foi assinada em outubro de 2023. O negócio transfere à J&F a totalidade da fatia da ex-estatal, mas ainda depende de aprovações regulatórias sensíveis: CNEN, ANEEL, CADE e Presidência da República.
Contexto: por que a Eletronuclear importa agora
- Angra 3: a usina está paralisada há anos, consumindo recursos em manutenção e juros da dívida sem gerar receita. A entrada de capital privado com apetite de risco pode destravar a conclusão.
- Sócio estratégico: a União permanece como acionista majoritária. A J&F entra como parceira operacional e financeira, não como controladora.
- Sinal ao mercado: a presença no Nuclear Legacy antecipa a narrativa de “player nuclear consolidado” perante investidores, bancos de desenvolvimento e fornecedores internacionais.
Projeções: o que observar nos próximos meses
O cronograma regulatório é a variável crítica. A análise da CNEN envolve segurança radiológica e salvaguardas — processos que não admitem atalhos. Paralelamente, o CADE avalia concentração de mercado, dado o tamanho da J&F no setor elétrico.
Se as aprovações avançarem no primeiro semestre de 2025, a Âmbar poderá participar ativamente do plano de retomada de Angra 3, previsto para demandar aportes na casa de bilhões de reais. A experiência do grupo em estruturar financiamentos de projetos complexos (vide termelétricas a gás) será testada em outra escala.
Outro ponto de atenção: a definição do novo marco regulatório nuclear, em discussão no Congresso. Quem já ocupa assento à mesa — como a J&F passa a ocupar — tende a influenciar as regras de contratação, garantias e rateio de custos de decomissionamento.
O que acompanhar daqui para frente
Três marcos dirão se a aposta antecipada valeu a pena: a publicação do termo de anuência da CNEN, a decisão final do CADE sem restrições onerosas e o anúncio do cronograma físico-financeiro de Angra 3 com aportes confirmados. Enquanto isso, a marca Âmbar circula no Nuclear Legacy como se o negócio já fosse fato consumado — estratégia que, no setor elétrico brasileiro, costuma anteceder a realidade.
