A Hermès fechou o terceiro trimestre com alta de 4,3% nas vendas totais, atingindo 4,1 bilhões de euros, mas o número ficou abaixo das estimativas e expôs uma fratura interna perigosa: enquanto as bolsas disparam, moda e relógios afundam. A ação caiu quase 6% na abertura, ampliando a perda do ano para 39%.
O que está por trás da divergência mais extrema da história recente da marca? A resposta passa por Pequim, pelo Oriente Médio e por uma aposta arriscada em alta-costura masculina.
O motor que não para: couro cresce dois dígitos
A divisão de bolsas e artigos de couro — responsável pela fatia majoritária da receita — acelerou 10,8% no período. É o pilar que sustenta a tese de “crescimento rentável” defendida pelo CEO Axel Dumas, mesmo em meio ao que a empresa classifica como ambiente “complexo”.
Nos EUA e na Europa (ex-França), o ritmo foi ainda mais forte: Américas subiram 8,8% e a Europa avançou 9,5%, turbinada pela nova flagship na Bond Street, em Londres. O consumidor rico ocidental segue comprando Birkin e Kelly sem pestanejar.
O gelo na China e o buraco no Oriente Médio
O contraponto brutal veio da Ásia-Pacífico (ex-Japão), estagnada em 0%, e do Oriente Médio, que recuou 4,5%. Na China, o tráfego nas lojas caiu e arrastou moda masculina, relógios e calçados para o vermelho. O CFO Eric du Halgouët admitiu que outubro mantém a mesma toada.
No Golfo, o conflito entre EUA e Irã funcionou como freio imediato para o turismo de alto gasto. Diferente de ciclos anteriores, não há sinal de recuperação rápida no horizonte geopolítico.
O abismo entre categorias: dados que não mentem
A disparada das bolsas mascara o colapso das demais linhas. Veja o recorte do trimestre:
- Artigos de couro: +10,8%
- Roupas e acessórios: -2,0%
- Relógios: -6,0%
- Seda e têxteis: +1,4% (desaceleração forte)
Para James Grzinic, da Jefferies, “o atraso das outras categorias se agravou a níveis sem precedentes”. A dependência de uma única divisão nunca foi tão exposta.
A aposta na alta-costura masculina e o efeito halo
Para virar o jogo na moda, a Hermès aposta na estreia de Grace Wales Bonner na direção criativa masculina e no lançamento da alta-costura em 2027. A expectativa interna é de um “efeito halo” que irradie prestígio para o prêt-à-porter e acessórios.
Dumas evitou prometer prazos. Disse apenas que o grupo “mantém o rumo”. O mercado, porém, cobra execução: a avaliação da empresa — antes a mais cara do setor — já encolheu para 135 bilhões de euros, patamar similar ao da LVMH (que cai 39% no ano) e Kering (-29%).
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo movimento da ação: a velocidade da recuperação do tráfego na China continental, a capacidade da nova moda masculina gerar receita real (não só buzz) e a resistência do consumidor americano caso os juros permaneçam altos. Enquanto as bolsas forem o único motor, o prêmio de valuation seguirá sob pressão. Quem acompanha o setor deve monitorar o guidance de câmbio constante da próxima conferência: qualquer revisão para baixo sinaliza que a “exceção Hermès” chegou ao fim.
