Economia

O caos tributário britânico: por que o Reino Unido arrecada menos cobrando mais?

Labirinto tributário britânico com símbolos de libra e engrenagens representando caos fiscal
O emaranhado do sistema fiscal britânico que penaliza a economia com dupla tributação

O sistema tributário do Reino Unido se tornou um labirinto de contradições que penaliza a economia e recompensa a evasão criativa. Às vésperas de mais um orçamento, a pergunta que não quer calar: por que sucessivos governos insistem em manter regras que todos sabem ser disfuncionais?

Dois impostos sobre a mesma renda: a esquizofrenia do “National Insurance”

Imagine explicar a um investidor estrangeiro que o país cobra dois impostos de renda completamente separados. Um tem alíquotas de 0%, 20%, 40%, 60% e 45%. O outro — chamado de “seguro nacional” embora mal financie a seguridade — aplica 0%, 8% e 2% para uns, 6% e 2% para outros, e isenta certos rendimentos dependendo de como foram obtidos.

Se não existisse, nenhum chanceler ousaria propor sua criação. Mas, como já está lá, removê-lo virou tabu político.

O IVA neozelandês prova que simplicidade arrecada mais

A Nova Zelândia aplica IVA único de 15% sobre praticamente tudo. Resultado: arrecada 96% do potencial teórico. O Reino Unido cobra 20% e captura fração muito menor da base. A diferença? Um festival de isenções e alíquotas reduzidas que virou playground para advogados tributaristas.

Quando a justiça fiscal vira piada de tribunal

As distorções beiram o absurdo. Exemplos reais que chegaram às cortes:

  • Jaffa Cakes: bolacha ou bolo? Decisão: bolo (isentos), porque secam endurecendo, não amolecem.
  • Nesquik: chocolate paga IVA; morango, não. Razão oficial: incompreensível.
  • Marshmallows: tamanho normal, gigante e mini têm tratamentos diferentes.
  • Barras proteicas: não são “flapjacks” porque juízes provaram e acharam “sem qualidade para servir no chá da tarde”.

Metade do consumo britânico escapa do IVA padrão. Roupas infantis de grife — Dior, Burberry — são isentas, enquanto ternos sob medida pagam 20%.

O imposto predial congelado em 1991

Para calcular o Council Tax de uma casa nova na Inglaterra, a autoridade avalia quanto ela valeria em 1º de abril de 1991 — mesmo que não existisse. A data não é aleatória: foi o último ano antes de uma reforma prometida e nunca entregue. Trinta e três anos depois, a ficção persiste.

O custo invisível da complexidade

Cada brecha exige fiscalização, contestação, parecer jurídico. Contadores e advogados faturam alto; a economia encolhe; a base tributária míngua. A OCDE estima que sistemas simplificados reduzem custos de conformidade em até 30% para empresas de médio porte.

Mas o dano mais perverso é comportamental: gente adiando morte para escapar de herança, empresas reestruturando só para encaixar em alíquota menor, consumidores mudando hábitos por distorções de IVA.

Por que a reforma não sai do papel?

George Brown deu independência ao Banco da Inglaterra. George Osborne criou o Escritório de Responsabilidade Orçamentária. Grandes mudanças institucionais são possíveis quando há vontade política. O que falta não é diagnóstico — é coragem para enfrentar lobbies setoriais e narrativas de “proteção aos pobres” que, na prática, beneficiam quem consome mais.

O que observar nas próximas semanas

O orçamento dirá se o governo prefere remendos pontuais — mexer em alíquota aqui, criar isenção ali — ou encara a reestruturação de raiz. Sinais concretos: fusão declarada do National Insurance ao imposto de renda, fim de isenções de IVA sem contrapartida direta em benefícios focalizados, e revisão da base do Council Tax para valores atuais. Sem isso, o circo continua — e a conta, como sempre, cai no contribuinte honesto.