Cerca de 60 livrarias independentes espalhadas por dez estados brasileiros articulam uma campanha coordenada pedindo voto no petista Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. A mobilização, batizada de “Movimento das Livrarias pelo Brasil”, marca a primeira vez em décadas que o setor livreiro se organiza coletivamente com viés eleitoral explícito.
A iniciativa nasceu de um incômodo individual e ganhou escala nacional em semanas. O estopim foi a ausência de menções a livros, leitura ou cultura no plano de governo do candidato adversário, Flávio Bolsonaro (PL).
Como tudo começou: da vitrine à rede nacional
Elisa Quadros, proprietária da Lúcia Livraria — aberta recentemente em Anchieta, no Espírito Santo —, publicou em setembro um posicionamento pessoal em defesa da democracia nas redes da loja. Dias depois, amplificou o recado com uma foto da Constituição Federal e a frase: “nesse livro ninguém mexe”.
A postagem viralizou no meio livreiro. Agatha Kim, sócia da livraria paulistana Aigo e com passagem pela publicidade, viu potencial para transformar o gesto isolado em ação coletiva. Ela estruturou a coordenação: posts padronizados, hashtags compartilhadas e cronograma sincronizado.
Hoje, o movimento reúne estabelecimentos de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Bahia e Mato Grosso do Sul, entre outros.
Quem está (e quem não está) no movimento
A adesão concentra-se em livrarias de rua, independentes — Megafauna e Bibla (SP), Baleia e Taverna (RS), Blooks e Leonardo da Vinci (RJ), Circulares (DF), LDM (BA) e Hamor (MS) são alguns nomes. Redes de grande porte como Leitura, Curitiba e Vila não participam.
Para dimensionar: a Associação Nacional de Livrarias (ANL) estima mais de mil lojas do tipo no país. Veteranos do setor não recordam precedente semelhante de engajamento eleitoral organizado.
- ANL: não se posiciona institucionalmente, mas seu presidente, Alexandre Martins Fontes, declara apoio pessoal a Lula; a Livraria Martins Fontes integra o movimento.
- CBL (Câmara Brasileira do Livro): mantém neutralidade partidária; enviou carta aberta aos candidatos com propostas setoriais (PNLL, bibliotecas, direitos autorais, IA).
- SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros): adota postura análoga à CBL — diálogo institucional apartidário.
- LIBRE (Liga Brasileira de Editoras): uma das poucas entidades editoriais a se manifestar publicamente, com posts pró-democracia.
O racha no mercado e o termômetro nas ruas
O consenso está longe de ser total. O mercado editorial abriga alas conservadoras e empresários alinhados ao bolsonarismo — menos ruidosos nas redes, mas presentes. Nos comentários das publicações do movimento, leitores e clientes criticam o posicionamento político das lojas, reflexo de um segundo turno descrito como o mais polarizado desde a redemocratização.
Essa divisão expõe um dilema para negócios que dependem de clientela heterogênea: assumir posição política pode fidelizar um público e afastar outro.
O que observar nas próximas semanas
Independentemente do resultado nas urnas, três frentes merecem atenção de quem atua ou investe no ecossistema do livro:
- Continuidade da mobilização: se o movimento sobreviver ao calendário eleitoral, pode se tornar uma nova voz de lobby setorial.
- Resposta das entidades de classe: CBL e SNEL prometem manter diálogo com o governo eleito; a cobrança por execução das propostas da carta aberta (PNLL, bibliotecas, direitos autorais) será o teste real de influência.
- Impacto comercial: monitorar se o engajamento político se traduz em fluxo de clientes ou retração — dado relevante para planejamento de estoque e marketing no primeiro semestre de 2023.
O desfecho das urnas definirá o interlocutor no Planalto, mas a capacidade do setor de manter-se articulado além de outubro é que ditará se esta foi uma faísca momentânea ou o nascimento de uma nova dinâmica de representatividade.
