A atividade econômica da Argentina encolheu 1,74% em agosto na comparação anual, marcando o segundo mês seguido de retração e acendendo o sinal vermelho para uma recessão técnica. O número vem do Indec, o instituto oficial de estatísticas, e coloca o segundo maior PIB da América do Sul em rota de colisão com o cenário traçado pelo governo Milei.
Na comparação mensal, houve um alívio marginal: alta de 0,1% frente a julho. Mas o acumulado do ano já desacelerou — passou de 1,7% no período até julho para 1,2% no fechamento de agosto. A pergunta que fica é: até quando os pilares que sustentam o crescimento aguentam o peso da contração interna?
O motor que não gira: indústria e comércio recuam forte
Os setores que mais puxaram o resultado para baixo são justamente os que mais empregam. A pesca despencou 15,7%, a intermediação financeira caiu 3,8% e o varejo atacadista e varejista recuou 3,5%. A indústria manufatureira perdeu 3,2%, transportes e comunicações caíram 2,9% e a construção encolheu 2,5%.
Em contrapartida, três segmentos evitaram um tombo maior: mineração e petróleo subiram 11,1%, eletricidade, gás e água avançaram 4,3% e hotéis e restaurantes cresceram 3,1%. A economista Clara Brenck, da UFMG e do Made/USP, resume o dilema:
“O que está crescendo não depende da economia doméstica. São setores atrelados a preços internacionais. Não dá para comemorar.”
O que os números não dizem (mas o desemprego grita)
O avanço do desemprego é o termômetro mais sensível. Brenck aponta que a queda da inflação — a única “boa notícia” citada por analistas — permanece refém da taxa de câmbio. Enquanto isso, os cortes de gastos e a promessa de que a redução de impostos estimularia o investimento privado ainda não se traduziram em atividade real.
- Indústria e comércio: maior empregabilidade, maior queda.
- Mineração e petróleo: sustentam o PIB, mas são voláteis e externos.
- Hotéis e restaurantes: ajudam no emprego, mas peso pequeno no total.
A leitura do governo: otimismo seletivo
O ministro Luis Caputo preferiu destacar a variação mensal positiva de 0,1% e o indicador tendência-ciclo, que estaria 6,6% acima de dezembro de 2023. Em redes sociais, celebrou também o recorde das exportações agroindustriais: US$ 43,2 bilhões nos primeiros nove meses de 2026, alta de 13% em relação ao mesmo período de 2025.
O detalhe: o indicador tendência-ciclo registrou variação zero em agosto. Ou seja, a dinâmica de alta perdeu fôlego justamente quando o governo mais precisa de sinais de recuperação sustentada.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o rumo nos próximos trimestres: a capacidade do setor externo (commodities e câmbio) manter os superávits, a velocidade de reação do consumo interno diante do desemprego em alta e a disposição do setor privado para investir num ambiente de ajuste fiscal contínuo. Se a indústria não voltar a girar, o crescimento apoiado apenas em petróleo e agro deixa a economia exposta a choques externos — e o risco de recessão deixa de ser projeção para virar realidade.
