Richarlison acusa o senador Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz de articular a tomada de uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, pela qual o jogador diz ter pago R$ 10 milhões. A disputa, que se arrasta desde 2020, ganhou novo capítulo com a divulgação de documentos pelo atacante do Tottenham. Mas o que está realmente em jogo não é a propriedade da terra — e sim quem detém o direito de ocupação de um terreno da União.
O imóvel fica em uma ilha de 4,5 km de extensão, coberta por Mata Atlântica, com praias acessíveis na maré baixa e uma cachoeira particular. A localização privilegiada na Baixada do Bracuí a transforma em ativo cobiçado no mercado de luxo da Costa Verde. Entender a diferença entre propriedade e posse é o primeiro passo para decifrar o imbróglio.
Como tudo começou: negociação com posseiros
Em 2020, Richarlison, seu então empresário Renato Velasco e o político Alencar da Silveira Júnior negociaram a cessão de direitos possessórios com Antônio Marcos Pereira Silva, que ocupava a mansão. O jogador afirma ter desembolsado R$ 4,66 milhões aos antigos ocupantes, além de custear reformas e segurança — totalizando os R$ 10 milhões citados publicamente.
Meses depois, Flávio Bolsonaro visitou a propriedade a convite do ex-senador Wilder Morais. Em janeiro de 2021, retornou acompanhado de Willer Tomaz. Segundo Antônio Marcos, o advogado teria perguntado se era possível desfazer o negócio com o grupo do atleta. Tomaz nega e sustenta que já conhecia a ilha antes desses episódios.
A virada judicial em 24 horas
O ponto central da acusação de Richarlison: a regularização na Secretaria do Patrimônio da União (SPU). O jogador diz ter protocolado pedido em setembro de 2021, que ficou parado por cerca de dez meses. Em contrapartida, uma solicitação vinculada ao grupo de Tomaz teria sido concluída em um único dia — julho de 2022.
Essa celeridade é o que o atacante chama de “mão grande na Justiça”. A empresa M Locadora, ligada a Tomaz, entrou com ação de reintegração de posse contra a Sport 70 (de Richarlison), a YTA Consultoria e Renato Velasco. A batalha processual gerou liminares, mandados e, em maio de 2023, a extinção da ação principal sem análise de mérito — por divergência interna entre os sócios da M Locadora.
O que diz cada lado: versões irreconciliáveis
- Richarlison: afirma ter comprado de quem ocupava o imóvel, apresenta contratos e comprovantes, acusa fraude na regularização e promete levar o caso adiante.
- Willer Tomaz: sustenta que a aquisição foi legal, com escritura registrada, certidão da SPU e decisões favoráveis em todas as instâncias, inclusive no STJ. Aponta divergência nos valores declarados pelo jogador (R$ 4,66 mi no vídeo vs. R$ 2,6 mi nos autos).
- Flávio Bolsonaro: nega participação na disputa; diz ter sido arrolado apenas como testemunha por Alencar da Silveira Júnior, sócio do próprio Richarlison na época.
Decisões recentes e o fim do processo principal
Em junho de 2025, o STJ manteve entendimento favorável à empresa de Tomaz. Em outubro do mesmo ano, houve homologação de renúncia do autor da ação. O processo foi arquivado definitivamente em 23 de janeiro de 2026. Isso não encerra eventuais novas ações, mas fecha a via judicial principal que tramitava no Rio de Janeiro.
Paralelamente, o coletivo Derrubando Muros protocolou representação no Ministério Público Federal pedindo apuração de irregularidades na regularização do terreno da União. Richarlison também é réu em ação em Brasília por supostas acusações sem lastro, segundo a defesa de Tomaz. Um inquérito policial sobre o caso foi arquivado por ausência de indícios de crime.
O que observar daqui para frente
A ilha continua sob domínio da União — qualquer negociação envolve direitos de uso, não escritura definitiva. Richarlison sinaliza que buscará recuperar o imóvel ou os valores investidos, e promete destinar eventual indenização ao hospital de Nova Venécia (ES), sua cidade natal. Flávio Bolsonaro não se manifestou após o novo vídeo. Willer Tomaz reforça que as decisões transitadas em julgado dão segurança jurídica ao seu grupo.
Para quem acompanha o mercado de imóveis de alto padrão em áreas de marinha, o caso expõe os riscos de transações baseadas apenas em cessão de posse sem regularização prévia na SPU. A celeridade de um processo administrativo em detrimento de outro, quando envolve figuras com acesso a centros de decisão, tende a ser o foco de eventuais investigações do MPF. O desfecho prático: a mansão segue com o grupo de Tomaz, mas a disputa patrimonial pode migrar para a esfera cível por danos materiais.
