O temido El Niño de forte intensidade não trouxe a seca generalizada que o mercado projetava. Em vez disso, o excesso de umidade no Sul do país está ditando o ritmo da safra 2026/27, criando um cenário misto: soja e milho avançam, enquanto feijão e arroz enfrentam gargalos climáticos e de demanda.
Essa divergência entre culturas deve ditar os preços nos próximos meses. Entenda o que está em jogo para cada grão.
Soja e milho: o lado positivo do quadro
O plantio da soja caminha acima da média histórica. Em Mato Grosso, maior produtor nacional, as máquinas ganharam fôlego nos últimos dias. No Paraná, a chuva pausou os trabalhos na semana passada, mas a semeadura foi retomada. Mato Grosso do Sul e Goiás também registram boa evolução.
No milho de primeira safra, o otimismo é ainda maior. A área plantada cresceu em relação ao ciclo anterior e a janela de plantio está na reta final sem sobressaltos climáticos relevantes no Centro-Oeste.
Feijão: frio fora de época ameaça florada
O cenário muda de figura para o feijão. Temperaturas持续 abaixo de 15 °C no Paraná e no sudoeste de São Paulo — regiões tradicionais da cultura — provocam abortamento de flores, comprometendo o potencial produtivo.
- Paraná: principal Estado produtor, enfrenta frio atípico para o período
- Sudoeste paulista: segunda área afetada, reforça tendência de quebra
- Projeção: safra “provavelmente baixa”, nas palavras do analista Vlamir Brandalizze
A combinação de frio e dias nublados também freia o desenvolvimento das lavouras de soja semeadas há cerca de um mês, que ainda não apresentam vigor esperado.
Arroz: atraso no plantio, mas preços dão sustentação
O cereal entra na entressafra com estoques apertados após uma colheita menor em 2024. No Rio Grande do Sul, apenas 50% da área prevista foi semeada — em anos normais, o índice já estaria em 70%. O excesso de chuva e a falta de sol prejudicam uma cultura que, segundo Brandalizze, “gosta de água no pé e sol na cabeça”.
Apesar do atraso, o setor projeta recuperação de ritmo. A área total prevista para 2026/27 é de 1,55 milhão de hectares, com redistribuição geográfica relevante:
- Tocantins: salto de 95 mil para 110 mil hectares
- Rio Grande do Sul: recuo para 850 mil hectares
Em Mato Grosso, o sorgo — mais tolerante à seca — pode ganhar espaço em detrimento do arroz.
Preços: da euforia ao ajuste semanal
A saca de arroz no Sul saltou de R$ 50 no período de safra para R$ 81-82 nas semanas anteriores, devolvendo margem ao produtor mesmo com custos elevados. Nesta semana, porém, os valores recuaram para R$ 78-79, pressionados por fatores conjunturais:
- Exportações em bom ritmo, mas indústria resistindo a formar estoques
- Entrada de arroz do Mercosul em volume menor
- Varejo promovendo arroz comprado na baixa, forçando queda no preço ao produtor
- Demanda doméstica estagnada: endividamento das famílias e migração de renda para apostas
O que observar daqui para frente
Dois vetores definem o curto prazo. No clima, o risco real para o arroz não é o excesso de chuva — as lagoas estão cheias, garantindo irrigação —, mas eventuais enchentes de grande magnitude. Na demanda, a exportação surge como alavanca: a safra recorde de 2024 abasteceu o mercado interno, mas problemas climáticos na Ásia reduzem a oferta global, abrindo janela para o Brasil colocar 2 milhões de toneladas de arroz em casca já em novembro, com competitividade na América Central e na África.
Para o feijão, a definição da quebra no Paraná e em São Paulo nas próximas três semanas ditará se o País precisará ampliar importações. No milho e na soja, o foco muda para o desenvolvimento vegetativo e a regularidade das chuvas no verão.
Resumo prático: soja e milho seguem roteiro favorável; feijão acende alerta de oferta; arroz navega entre atraso de plantio, ajuste de preços e oportunidade de exportação. Acompanhe os boletins semanais de evolução de lavoura e o comportamento do câmbio — este último, decisivo para a competitividade externa do cereal.
