A Amobitec, associação que reúne nomes como Buser e FlixBus, protocolou uma carta aberta nas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro exigindo o fim do monopólio no transporte interestadual de passageiros. O setor fatura R$ 30 bilhões por ano e move mais de 100 milhões de pessoas, mas a estrutura de mercado pouco mudou nas últimas décadas.
Um mercado travado por autorizações, não por demanda
Dados da própria entidade mostram o tamanho do gargalo: 60% dos mercados autorizados operam sob regime de monopólio. Em 80% das rotas, apenas uma ou duas empresas detêm o direito de circular. Não é falta de interesse — é excesso de barreira burocrática.
A ANTT, agência responsável pelas outorgas, é apontada como o principal entrave. O Ministério Público Federal já usou o termo “captura regulatória” para descrever a relação entre o regulador e as operadoras incumbentes. Em linguagem direta: quem já está dentro dita as regras para manter quem está fora.
O que as novas entrantes querem, na prática
A carta não pede subsídio nem proteção. Pede revisão do marco regulatório aprovado recentemente, considerado pela Amobitec um texto que consolida privilégios das empresas tradicionais. Buser e FlixBus, principais associadas, operam com modelos baseados em tecnologia e ocupação de assentos ociosos — o que reduz preço ao passageiro final.
- 60% dos mercados autorizados sob monopólio efetivo
- 80% das rotas com no máximo duas operadoras
- R$ 30 bi de faturamento anual do setor
- 100 mi+ de passageiros transportados por ano
Esses números explicam por que a associação mira direto nas campanhas presidenciais: a caneta que muda a regra está no Palácio do Planalto, não na agência.
O efeito cascata no bolso de quem viaja
Quando há concorrência real, a tarifa cai. Estudos de mercado mostram reduções de 30% a 50% em trechos onde novos players conseguiram autorização. O passageiro de baixa renda, que depende do ônibus para visitar a família ou buscar trabalho, é quem paga a conta da falta de opção.
Mas o impacto vai além do preço da passagem. A rigidez do modelo atual desestimula investimentos em frota nova, wi-fi, rastreamento em tempo real e integração com aplicativos — serviços que já são padrão em mercados abertos.
O que observar daqui para frente
As duas campanhas ainda não responderam publicamente à carta. O próximo passo da Amobitec é levar o mesmo pleito ao Congresso, onde tramitam projetos que flexibilizam a outorga. Se o próximo governo sinalizar abertura, o setor pode viver a maior reestruturação desde a privatização das rodovias. Para o empresário ou investidor atento, o sinal está dado: o transporte rodoviário interestadual é um mercado de R$ 30 bilhões esperando permissão para competir.
