Saúde

Água preta na torneira e pacientes comprando remédio: o drama no Raul Sertã

Torneira jorrando água preta e suja no Hospital Municipal Raul Sertã em Nova Friburgo
Água escura sai da torneira do Hospital Raul Sertã enquanto pacientes denunciam falta de insumos básicos.

Um vídeo gravado dentro do Hospital Municipal Raul Sertã, em Nova Friburgo, mostra água escura jorrando da torneira enquanto pacientes relatam a falta de itens básicos para sobreviver à internação. A cena, registrada na terça-feira (20), expõe uma cadeia de falhas que vai muito além da cor do líquido.

O abastecimento havia sido interrompido e, ao retornar, trouxe uma sujeira visível que assustou quem estava internado. Mas a água foi apenas o gatilho para denúncias mais graves.

O relato que expôs a rotina da unidade

Acompanhantes e funcionários descrevem um cenário de improviso constante. A atendente Elaine Monteiro, que acompanha o marido, precisou levar de casa papel higiênico e fraldas — itens que deveriam ser garantidos pela rede pública. “Não tem nada lá dentro”, resumiu.

A aposentada Marlene Gonçalves, de 75 anos, internada após infarto, listou o que a família transportou para o quarto: cobertor, lençóis, ventilador, cadeiras e até medicamentos que o hospital não tinha em estoque. “Fica chato a gente no hospital, passando mal, e não ter o remédio certo”, disse.

Quando a família vira fornecedora do hospital

A lógica se inverte: o paciente entra vulnerável e sai como provedor da própria estrutura de cuidado. A lista de itens trazidos de fora ilustra o vazio assistencial:

  • Higiene: papel higiênico, fraldas, sabonete;
  • Conforto: lençóis, cobertores, ventiladores, cadeiras;
  • Clínico: antibióticos e outros medicamentos de uso contínuo.

Uma funcionária que pediu anonimato confirmou o colapso logístico. Faltam agulhas para diluição, seringas e o próprio fármaco base. “Vemos os médicos sem saber o que fazer. É a desvalorização da vida humana”, lamentou.

A versão oficial e os pontos que não fecham

A Secretaria Municipal de Saúde reconheceu o atraso na entrega de papel higiênico, regularizado após a repercussão. Sobre a água, alegou problema na caixa-d’água e ar na tubulação no sábado, resolvido no mesmo dia.

Quanto às cadeiras com estofados rasgados e apoios cobertos por sacolas plásticas, a direção afirmou que uma vistoria na terça não encontrou equipamentos nessas condições. Informou ainda que as poltronas do setor de medicação já foram trocadas.

Mas há um descompasso temporal: se o problema da água foi “resolvido no sábado”, por que na terça-feira a torneira ainda cuspia água escura? E se as cadeiras foram vistoriadas e estavam boas, por que múltiplos pacientes e acompanhantes descrevem o mesmo defeito nos mesmos móveis?

O que observar daqui pra frente

A troca de mobiliário em um setor específico sugere que a gestão conhecia o desgaste, mas agiu de forma pontual, não sistêmica. A regularização do papel higiênico ocorreu só após a denúncia pública.

Para quem depende do Raul Sertã — ou fiscaliza a saúde pública na Região Serrana —, o sinal de alerta está ligado: a reposição reativa de insumos não substitui um plano de contingência. Vale cobrar do município o cronograma de manutenção preventiva da rede hidráulica e a auditoria do almoxarifado central. A próxima intercorrência pode não ter câmera por perto.