Saúde

Água escura e cadeiras rasgadas: o caos no Raul Sertã que ninguém explica

Torneira jorrando água escura e cadeiras rasgadas cobertas por plástico no Hospital Raul Sertã em Nova Friburgo
Vídeo expõe água escura na torneira e cadeiras precárias no Hospital Municipal Raul Sertã, em Nova Friburgo.

Um vídeo gravado dentro do Hospital Municipal Raul Sertã mostra água escura jorrando da torneira enquanto pacientes relatam cadeiras com estofados rasgados cobertos por sacolas plásticas. A cena expõe um colapso silencioso na unidade de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, e levanta uma pergunta incômoda: até onde a precariedade chega antes de virar tragédia?

Quando a torneira vira risco à saúde

O registro foi feito após a retomada do abastecimento, que havia sido interrompido sem aviso prévio. A água marrom apareceu nas pias usadas por internados, acompanhantes e equipe médica. Segundo a direção, o problema foi identificado no sábado (17) — uma falha na caixa-d’água somada a ar na tubulação — e resolvido no mesmo dia.

Mas o vídeo só veio a público na terça-feira (20). Três dias de silêncio separam a suposta solução da denúncia visual. Nesse intervalo, quantas pessoas usaram aquela água?

A conta que o paciente paga

O impacto direto recai sobre quem menos pode se defender. A aposentada Marlene Gonçalves, 75 anos, internada após infarto, dependeu da família para itens básicos:

  • Cobertor e lençóis
  • Ventilador e cadeiras
  • Papel higiênico e fraldas
  • Medicamentos que o hospital não tinha em estoque

“Fica chato a gente no hospital, passando mal, e não ter o medicamento certo”, disse ela. A atendente Elaine Monteiro, acompanhante do marido, precisou dividir fraldas e papel higiênico com outros pacientes. “Não tem nada lá dentro”, resumiu.

O relato de quem trabalha lá dentro

Uma funcionária que pediu anonimato descreveu o dia a dia como “perrengue constante”. Faltam agulhas para diluição de antibióticos. Quando há seringa, falta agulha. Antibióticos em falta. Médicos sem saber o que prescrever. “É a desvalorização da vida humana”, afirmou.

O depoimento aponta para um gargalo logístico que não se resolve com nota oficial: a cadeia de suprimentos está rompida.

A versão oficial — e o que não fecha

A Secretaria Municipal de Saúde enviou nota com três frentes de resposta:

  • Papel higiênico: atraso na entrega regularizado
  • Água escura: problema na caixa-d’água e ar na tubulação, solucionado no sábado (17)
  • Cadeiras: nova vistoria na terça (20) não encontrou equipamentos nas condições denunciadas; poltronas do setor de medicação já foram substituídas

Há tensão entre as versões. Pacientes e funcionários descrevem cenário contínuo; a gestão aponta resoluções pontuais e imediatas. A vistoria de terça-feira ocorreu após a repercussão — não antes.

O que observar nas próximas semanas

Três indicadores dirão se a resposta foi cosmética ou estrutural: regularidade no reposição de insumos (agulhas, seringas, antibióticos), manutenção preventiva da rede hidráulica com relatórios públicos e substituição completa do mobiliário danificado, não apenas no setor de medicação. A promessa de “vistoria feita” precisa virar cronograma de troca com datas. Até lá, a torneira segue aberta — e a água, por enquanto, voltou a correr limpa.