O dólar abriu esta quarta-feira (21) praticamente parado, cotado a R$ 5,015, enquanto investidores seguram a respiração para a pesquisa Quaest das 10h. O empate técnico entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) virou o principal termômetro dos ativos brasileiros a quatro dias do segundo turno.
O rali de terça-feira e a aposta no ajuste fiscal
Na véspera, o cenário foi de euforia: o Ibovespa saltou 1,56%, superando os 208 mil pontos, e a moeda americana recuou 0,57%. O motor? A expectativa de alternância de poder e a promessa de um choque fiscal rigoroso.
Rodrigo Moliterno, da Veedha Investimentos, resume o sentimento: o mercado precifica um compromisso maior com as contas públicas. A candidatura de Flávio Bolsonaro carrega a bandeira de um ajuste inicial na casa de 2% do PIB — cerca de R$ 250 bilhões.
O que as urnas (e as pesquisas) estão dizendo
O último Quaest, de 14 de outubro, mostrava Flávio com 46% contra 44% de Lula — empate técnico dentro da margem de erro. Nesta terça, o BTG Pactual/Nexus cravou 50,3% a 49,7% nos votos válidos para o senador.
O Datafolha sai amanhã (22) e pode confirmar ou virar a mesa. Rebecca Nossig, da Nomad, alerta: historicamente, o intervalo entre turnos injeta volatilidade extrema no Ibovespa. Não é hora de descartar sobressaltos.
- Quaest (14/10): Flávio 46% x Lula 44% (empate técnico)
- BTG/Nexus (20/10): Flávio 50,3% x Lula 49,7% (votos válidos)
- Próximo gatilho: Datafolha em 22/10
O plano de governo que o mercado lê — e o candidato nega
Segundo apurações da imprensa, a equipe do senador estuda limitar ganhos reais de benefícios previdenciários e do BPC, além de extinguir pisos constitucionais de saúde e educação. Flávio Bolsonaro nega publicamente essas medidas.
Se confirmado, o pacote reduziria o prêmio de risco brasileiro, derrubando a curva de juros futuros. Taxas menores barateiam o crédito corporativo e turbinam o lucro das empresas listadas — a conta que fez o Ibovespa romper os 200 mil pontos logo após o primeiro turno.
Petróleo e o efeito duplo sobre o real
Lá fora, o Brent tocou US$ 111,75 — maior nível desde maio — antes de recuar a US$ 109,29 com sinais de diálogo entre EUA e Irã. A tensão no Estreito de Hormuz, por onde passa 20% do petróleo global, mantém o prêmio de guerra no radar.
Para Leonel Oliveira Matos, da StoneX, a alta do óleo assusta emergentes, mas beneficia o Brasil exportador líquido. A entrada de dólares via balança comercial amortece a pressão cambial, criando um colchão extra para o real.
Varejo decola com a queda dos juros futuros
O alívio nas taxas DI — janeiro/28 caiu 14 pontos-base a 12,75%; janeiro/30 recuou 16 para 12,56% — fez o setor varejista brilhar. Americanas disparou 25% (fora do Ibovespa), Magazine Luiza avançou 14,8% e Renner, 5,6%.
Sensíveis ao custo de dívida e ao consumo, esses papéis funcionam como termômetro em tempo real das expectativas de Selic.
O que observar daqui para a frente
A quinta-feira traz o Datafolha; o domingo, as urnas. Até lá, cada oscilação nas intenções de voto mexerá no trio dólar, juros e Bolsa. Mantenha o radar ligado na curva de DI: se os vencimentos longos continuarem cedendo, o sinal de convicção no ajuste fiscal permanece forte. Se voltarem a subir, o mercado começa a precificar incerteza — ou continuísmo.
