A Fitch Ratings projeta endurecimento das contas públicas no Brasil a partir de 2027, cenário que se mantém seja qual for o vencedor do pleito presidencial. A combinação de ajuste fiscal e juros elevados deve frear a atividade econômica nos próximos anos.
A agência divulgou o alerta nesta quarta-feira (21), tirando o peso da incerteza eleitoral sobre a trajetória fiscal. O relatório indica que as pressões estruturais — envelhecimento populacional, rigidez orçamentária e dinâmica da dívida — forçam a mão do próximo governo.
O que muda na prática para quem investe
O cenário base da Fitch prevê superávit primário crescente a partir de 2027, ancorado em contenção de despesas obrigatórias e possíveis medidas de receita. Para o investidor, isso sinaliza:
- Juros reais altos por mais tempo — o Banco Central tende a manter postura restritiva enquanto o fiscal não der sinais claros de sustentabilidade.
- Câmbio pressionado — prêmio de risco elevado mantém o real volátil frente ao dólar.
- Crédito mais caro e seletivo — bancos apertam critérios, especialmente para pessoa jurídica de médio porte.
Por que a eleição não altera a equação
Diferente de ciclos anteriores, os dois polos competitivos apresentam programas com convergência involuntária: ambos precisam enfrentar o teto de gastos, a indexação de despesas e a regra de ouro. A Fitch nota que “a aritmética fiscal impõe limites que a vontade política não consegue contornar”.
Historicamente, governos eleitos com discurso expansionista recorreram a ajustes nos primeiros 18 meses. O diferencial agora é a velocidade: a dívida bruta acima de 75% do PIB reduz o espaço para manobra.
Setores mais sensíveis ao aperto
| Setor | Impacto direto | Prazo |
|---|---|---|
| Construção civil | Queda de investimento público (PAC, habitação) | 2025-2027 |
| Varejo não essencial | Consumo das famílias comprimido por juro alto | Imediato |
| Infraestrutura | Licitações dependem de garantias fiscais | 2026 em diante |
| Serviços financeiros | Spread bancário elevado, inadimplência em alta | Já em curso |
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis dirão se o cenário base da Fitch se confirma ou se deteriora: (1) tramitação da reforma administrativa no Congresso, (2) comportamento da arrecadação federal frente à meta de resultado primário e (3) decisão do STF sobre gatilhos de despesa obrigatória.
Empresários devem preparar fluxo de caixa para cenário de Selic terminal acima de 12% ao ano até meados de 2026. A janela para alongar dívidas a custo razoável fechará antes do início do ajuste fiscal efetivo.
O relatório completo da agência será atualizado após o segundo turno, mas a mensagem central já está dada: o ciclo de expansão fiscal encerrado em 2023 não se repete. Quem antecipar a reestruturação de balanço ganha margem de manobra; quem esperar o anúncio oficial paga o prêmio de risco.
