O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), teria comandado pessoalmente as negociações que levaram o Banco de Brasília (BRB) a fechar parceria com a Master, segundo revelam trechos de delação premiada. O valor em jogo: R$ 80 milhões em supostos pagamentos ilícitos.
A informação muda o patamar da investigação. Até então, o caso era tratado como uma operação comercial controversa. Agora, ganha contornos de esquema estruturado com participação direta do chefe do Executivo local.
O que a delação revela até agora
O delator, identificado como Vorcaro, detalhou em depoimento como funcionaria o fluxo de recursos. Segundo ele, a propina seria rateada entre agentes públicos e operadores privados para viabilizar o contrato entre o banco estatal e a empresa de meios de pagamento.
Pontos centrais do relato:
- R$ 80 milhões em valores totais mencionados
- Pagamentos parcelados ao longo da vigência do contrato
- Envolvimento de intermediários com trânsito no Palácio do Buriti
- Uso de empresas de fachada para lavar o dinheiro
A Procuradoria-Geral da República analisa a consistência das provas apresentadas — documentos, planilhas e registros de encontros — antes de decidir por eventual denúncia formal.
Por que o BRB virou peça-chave
O banco distrital, sob gestão de Paulo Henrique Costa desde 2019, expandiu agressivamente sua atuação em aquisições e parcerias tecnológicas. A Master, especializada em processamento de transações, encaixava-se na estratégia de modernização do BRB.
Mas a velocidade do acordo chamou a atenção de auditores internos. O contrato foi assinado em tempo recorde, sem as etapas habituais de due diligence e com cláusulas de confidencialidade atípicas para operações de porte médio.
Documentos obtidos pela investigação mostram que a diretoria técnica do banco chegou a emitir parecer contrário, posteriormente revertido por ordem superior.
O efeito nos bastidores do poder local
A revelação provoca abalo imediato na base aliada do governador na Câmara Legislativa. Deputados da oposição já articulam pedido de instalação de CPI para apurar não apenas este contrato, mas toda a carteira de parcerias firmadas pelo BRB nos últimos quatro anos.
No Judiciário, o STJ deve se pronunciar nas próximas semanas sobre a competência para processar o governador — se na corte superior ou na primeira instância, dado que parte dos fatos teria ocorrido antes do mandato atual.
Enquanto isso, o Ministério Público do Distrito Federal abriu procedimento próprio para rastrear eventual dano ao erário distrital, independentemente da esfera federal.
O que observar daqui para frente
Três frentes merecem acompanhamento nos próximos dias:
- Homologação da delação: se confirmada pelo relator, abre caminho para buscas, quebras de sigilo e eventual afastamento cautelar
- Posicionamento do BRB: o banco pode ser compelido a suspender o contrato e abrir auditoria independente
- Desdobramento político: base governista avalia custo-benefício de manter apoio incondicional ao governador
Para investidores e parceiros comerciais do BRB, o sinal é de cautela. A instituição tem capital aberto e qualquer sanção regulatória ou bloqueio de ativos impacta diretamente a cotação das ações (BSLI3, BSLI4) e a capacidade de captação no mercado.
O desfecho mais provável no curto prazo é a abertura de inquérito policial federal, com pedido de busca e apreensão em endereços ligados aos citados. A partir daí, o calendário processual ditará o ritmo — e a sobrevivência política de Ibaneis Rocha dependerá, em grande medida, da solidez das provas que acompanham a palavra do delator.
