Meio Ambiente

O El Niño mais forte em 40 anos e a conta climática que ninguém quer pagar

Mapa global de anomalia de temperatura do Pacífico mostrando El Niño intenso em tons vermelhos
Organização Meteorológica Mundial confirma El Niño mais forte em 40 anos com impactos globais severos

A Organização Meteorológica Mundial confirmou: o El Niño em curso pode superar qualquer evento registrado desde os anos 1980. O anúncio feito em Genebra nesta quarta-feira (21) não é apenas um alerta meteorológico — é um aviso de impacto direto em cadeias de suprimento, safras agrícolas e balanços de seguros nos próximos trimestres.

Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, foi direta: o fenômeno deve desencadear ondas de calor extremas em algumas latitudes enquanto provoca secas severas e inundações em outras. A distribuição dos danos não será uniforme, e é aí que reside o risco para quem toma decisões de investimento.

O que os números do Pnuma revelam sobre o cenário real

Horas depois do alerta da OMM, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente divulgou seu relatório anual de lacuna de emissões. A conclusão central: mesmo no cenário mais otimista, a temperatura média global deve atingir 1,7 a 1,8 °C acima dos níveis pré-industriais até meados do século.

A distância entre o necessário e o prometido permanece abissal. Veja o que os dados mostram:

  • Redução necessária até 2030: 18% em relação a 2025
  • Redução necessária até 2035: 45%
  • Redução necessária até 2040: 69%
  • O que os planos nacionais atuais entregam até 2030: apenas 5% a 8%

A conta não fecha. Sob as políticas atuais, o mundo caminha para 2,8 °C de aquecimento até 2100. Se todos os compromissos existentes forem integralmente cumpridos — hipótese cada vez menos provável —, ainda assim chegamos a 2,6 °C. Ambas as projeções pioraram em relação ao ano anterior.

Por que a saída dos EUA do Acordo de Paris mudou a matemática

A revisão para cima nas projeções tem duas causas principais. A primeira é a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, que removeu um dos maiores emissores do esforço coletivo. A segunda é a reavaliação das emissões históricas, que mostrou um ponto de partida mais alto do que se imaginava.

Para o setor privado, isso significa que cenários de planejamento baseados em 1,5 °C ou mesmo 2 °C estão desatualizados. Modelos de risco climático, precificação de ativos de longo prazo e estratégias de descarbonização precisam incorporar trajetórias mais severas.

O que a COP31 na Turquia pode — e não pode — resolver

As negociações climáticas de 2026 na Turquia serão o primeiro grande teste pós-EUA. António Guterres, secretário-geral da ONU, admitiu que “ultrapassar a meta não significa desistir”, mas enfatizou que o retorno a 1,5 °C até 2100 agora depende de remoção de carbono em larga escala — tecnologia cuja viabilidade econômica e técnica permanece incerta.

O relatório do Pnuma estima cerca de 50% de chance de retorno a 1,5 °C no cenário de “menor ultrapassagem possível”. Isso pressupõe que a remoção de carbono funcione em escala industrial nas próximas duas décadas. Não há plano B se não funcionar.

Impactos setoriais: onde o El Niño forte bate mais forte

O El Niño de intensidade recorde não afeta todos os setores da mesma forma. Histórico e modelagem climática apontam para assimetrias claras:

  • Agro e commodities: secas no Sudeste Asiático e Austrália reduzem oferta de óleo de palma, trigo e carvão; chuvas excessivas no Sul do Brasil e Argentina podem beneficiar soja e milho, mas aumentam risco logístico
  • Energia: ondas de calor elevam demanda por refrigeração justamente quando hidrelétricas sofrem com baixa vazão; gás e carvão tendem a ganhar participação temporária no mix
  • Seguros e resseguros: frequência de eventos extremos pressiona prêmios e capacidade de subscrição em regiões costeiras e agrícolas
  • Infraestrutura e logística: inundações interrompem corredores rodoviários e portuários; planejamento de estoques de segurança ganha prioridade

Mas o efeito mais relevante aparece na intersecção entre clima e política: governos sob pressão por desastres climáticos tendem a acelerar regulações de adaptação e, paradoxalmente, a subsidiar combustíveis fósseis para conter inflação energética no curto prazo.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o cenário para quem gere capital e risco nos próximos 18 meses. Primeiro, a velocidade de intensificação do El Niño — os modelos atuais indicam pico entre dezembro e fevereiro, mas a duração até o outono de 2027 é incerta. Segundo, a capacidade dos grandes emissores (China, UE, Índia) de preencher o vácuo deixado pelos EUA em financiamento climático e metas de redução. Terceiro, a evolução dos custos de tecnologias de remoção de carbono; se não caírem drasticamente até 2030, o cenário de “retorno a 1,5 °C” sai da mesa de planejamento realista.

Enquanto isso, a conta climática segue aberta. Quem precificar o risco hoje com base em cenários otimizados de 2023 estará subestimando exposição em 2027. A janela para ajustar modelos, contratos e alocações não é infinita — ela fecha junto com a lacuna de emissões.