O gestor investigado pela Polícia Federal por direcionar R$ 400 milhões de aposentados para letras financeiras irrecuperáveis do Banco Master mentiu sobre seu cargo para conseguir R$ 10 milhões do governo do Amapá para o Carnaval de 2026. A falsidade está registrada em documentos oficiais. A pergunta que fica: como um processo tão viciado passou por sete secretários estaduais sem alerta?
A mentira no papel timbrado
Em 25 de junho de 2025, Jocildo Silva Lemos assinou a proposta de patrocínio à Secretaria de Turismo como presidente da Liesap (Liga Independente das Escolas de Samba do Amapá). No mesmo documento, declarou ser ex-diretor-presidente da Amprev (Amapá Previdência) e atestou que a liga não tinha entre seus dirigentes ninguém que ocupasse cargo na administração pública estadual.
No mesmo dia, a capa do Diário Oficial do estado trazia Jocildo como presidente em exercício da Amprev. A lei veda expressamente parcerias entre o poder público e organizações sociais cujos diretores sejam também gestores de órgãos da mesma esfera.
O calendário que não mente
A sobreposição de agendas expõe a contradição:
- 26 de junho: Jocildo preside reunião do Conselho Estadual de Previdência; pauta inclui reunião extraordinária com o Banco Master para “esclarecimentos sobre investimentos”.
- 29 de maio a 15 de julho: Atas do comitê de investimentos da Amprev registram a participação ativa dele em deliberações.
- 25 de junho: Protocolo do pedido de R$ 10 milhões para o Carnaval.
- 2 de julho: Comitê de patrocínio (sete secretários) aprova por unanimidade.
- 31 de julho: Contrato assinado — Jocildo pela Liesap, secretária Syntia Lamarão pelo governo.
O dinheiro foi liberado, os desfiles ocorreram e a prestação de contas já foi aprovada.
Conexões que explicam a celeridade
Jocildo foi nomeado na Amprev pelo governador Clécio Luís (União) a indicação do senador Davi Alcolumbre (União-AP), para quem já foi tesoureiro de campanha. Alcolumbre aparece em banners e postagens da liga, e sua assessoria admite “articulação institucional” para retomada dos desfiles.
Quatro gestores transitavam entre Amprev e Liesap. Dois foram alvos da PF em fevereiro por gestão fraudulenta nos aportes ao Master; um era motorista do escritório de apoio de Alcolumbre e respondia pela conta bancária da liga; outro advogava para a Amprev. O vice de Jocildo na Liesap é o deputado federal mais votado do estado, Felipe Show (União-AP).
O padrão de governança frágil
Para justificar os custos, Jocildo apresentou apenas um “percentual estimado” baseado em convênio anterior — sem cotações de mercado exigidas pelo decreto. O argumento foi aceito. Nos Carnavais de 2025 e 2026, a liga movimentou R$ 22,5 milhões entre repasses estaduais e emendas de cinco deputados estaduais.
O governo do Amapá nega conflito: “O convênio foi firmado com o governo, não com a Amprev, inviabilizando ingerência direta”. A defesa formal, contudo, não apaga a vedação legal nem a falsidade declaratória.
O que observar daqui para frente
O inquérito civil do Ministério Público do Amapá apura improbidade e conflito de interesses. A demissão de Jocildo da Amprev ocorreu dias após a operação da PF — a polícia atribui a ele “papel central” nas reuniões de 2024 que validaram as compras das letras do Master. Ele permanece na Liesap.
Três frentes merecem atenção: o desfecho do inquérito do MP, eventuais questionamentos do Tribunal de Contas sobre a legalidade do repasse e a exposição residual dos fundos de previdência a ativos de liquidez duvidosa. Para quem gere ou fiscaliza recursos públicos, o caso reforça a necessidade de checagem cruzada de cargos antes de qualquer termo de fomento — especialmente quando o proponente acumula posições sensíveis.
