Economia

O segredo do mel: município do MA bate recorde e lidera o Brasil pelo 2º ano

Apiário em Santa Luzia do Paruá MA, maior produtor nacional de mel com 1,3 milhão de kg em 2025
Santa Luzia do Paruá consolida bicampeonato na produção de mel no Brasil

Santa Luzia do Paruá, no interior do Maranhão, acaba de confirmar o bicampeonato na produção nacional de mel: 1,3 milhão de quilos em 2025, segundo o IBGE. O volume supera em quase 20% o recorde anterior e coloca a cidade no centro de uma cadeia que movimenta bilhões. Mas o que explica esse domínio?

A resposta não está apenas nas flores. Está na estrutura que se construiu ao redor delas.

O mapa dos gigantes: quem mais aparece no topo

O levantamento da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) mapeou a atividade em 4.149 municípios. O pódio de 2025 revela uma disputa interestadual acirrada:

  • 1º – Santa Luzia do Paruá (MA): 1,3 mil t
  • 2º – Arapoti (PR)
  • 3º – Boa Esperança do Sul (SP)
  • 4º – São Raimundo Nonato (PI)
  • 5º – Ortigueira (PR)

O Paraná, apesar de não ter o campeão individual, segue como o estado de maior volume agregado — um sinal de que a escala paulista e paranaense ainda pesa na balança nacional.

Nordeste na frente: região concentra quase 40% do mel brasileiro

Em 2024, o Nordeste respondeu por 39,4% de toda a produção do país, alta de 3,5% sobre o ano anterior. Dentro do recorte regional, o Piauí brilhou com 12,8% do total nacional, seguido por Ceará, Bahia e Maranhão. O dado contrasta com a liderança estadual do Paraná e expõe uma dinâmica interessante: o Nordeste ganha em capilaridade, o Sul em concentração.

Para o investidor ou empreendedor do setor, isso significa duas frentes de oportunidade distintas: expansão de apiários em territórios subaproveitados do Nordeste e ganhos de escala nos clusters consolidados do Sul e Sudeste.

Trinta anos de história: como a apicultura virou motor local

Em Santa Luzia do Paruá, a atividade não nasceu ontem. Há mais de três décadas, a Igreja Católica incentivou os primeiros criadores como alternativa de renda. Hoje, a Secretaria Municipal de Agricultura contabiliza 152 apicultores ativos — de pequenos produtores familiares a operações com até 2.500 colmeias.

Francinildo, um dos nomes da região, colhe cerca de oito toneladas por ano. A vegetação do Alto Turi, rica em espécies nativas de floração contínua, funciona como um “pasto voador” natural, reduzindo custos com alimentação artificial e migração de colmeias.

O que separa o amador do profissional nessa conta

A diferença de produtividade entre apiários artesanais e estruturados pode ultrapassar 300%. Quem domina manejo sanitário, controle de enxameação e colheita no ponto certo transforma o mesmo território em fábrica de renda previsível. O município maranhense prova que condição natural é pré-requisito, não garantia.

Mas o efeito mais relevante aparece na logística de escoamento.

Gargalos e janelas: para onde o dinheiro flui

Com a produção crescente, a pressão sobre a cadeia de frio, certificação (SIF/SIE) e acesso a mercados institucionais (PAA, PNAE) e exportação aumenta. Hoje, boa parte do mel sai a granel para entrepostos no Sul, onde é beneficiado e embalado — capturando a maior fatia da margem.

Quem conseguir internalizar etapas de beneficiamento e rastreabilidade no próprio território nordestino muda a equação econômica do negócio.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o próximo ciclo: (1) clima — secas prolongadas no Nordeste podem cortar floradas; (2) sanidade — varroa e nosema exigem monitoramento constante; (3) política comercial — acordos de abertura de mercados na Ásia e Oriente Médio valorizam mel certificado e rastreado. O produtor que antecipar esses vetores, seja no Maranhão ou no Paraná, será o próximo a figurar no topo.