Uma empresa avaliada em US$ 10 bilhões anunciou que a ave símbolo da extinção pode voltar a caminhar na Terra ainda nesta década. A Colossal Biosciences usa edição genética para recriar o dodô, extinto há mais de 360 anos, e já tem no conselho nomes como Tom Brady e George R. R. Martin. O cronograma interno prevê resultados concretos para o início de 2030.
O projeto não se limita a um espetáculo midiático. A tecnologia desenvolvida para “desextinguir” espécies serve de motor para evitar que animais hoje ameaçados sigam o mesmo caminho. Mas a comunidade científica diverge sobre os riscos de tratar a biotecnologia como solução única.
O plano para recriar um ícone perdido
O dodô habitava a ilha Maurício, no Oceano Índico, até a chegada de navegadores holandeses em 1598. Sem predadores naturais, a ave não desenvolveu mecanismo de fuga. A introdução de ratos, porcos e macacos pelos humanos dizimou ninhos e ovos. Com postura de apenas um ovo por ano, a espécie não resistiu à pressão.
A Colossal traçou um roteiro técnico em cinco etapas para contornar a ausência de DNA viável:
- Sequenciamento: reconstruir o genoma com IA, dados de aves modernas e amostras de museus.
- Parente vivo: identificar o pombo-de-nicobar como o genoma mais próximo.
- Edição germinativa: coletar células que formam óvulos e espermatozoides do pombo-de-nicobar.
- Troca genética: substituir trechos do DNA do pombo por sequências que expressem traços do dodô.
- Incubação cruzada: inserir as células editadas em galinhas domésticas, que atuarão como “barrigas de aluguel”.
Atualmente, a equipe está na fase de coleta das células germinativas. Se o cronograma se mantiver, filhotes geneticamente idênticos ao dodô nascerão no começo da próxima década.
Por que investidores apostam na “desextinção”
O apelo vai além da curiosidade científica. A startup argumenta que as ferramentas criadas para o dodô — sequenciamento de alto rendimento, edição multiplex e gestão de gestação entre espécies — têm aplicação direta na conservação atual. O pombo-rosado, também nativo de Maurício e criticamente ameaçado, é o primeiro alvo dessa transferência de tecnologia.
Aumento de diversidade genética em populações isoladas é o ganho imediato. Populações com variabilidade baixa são vulneráveis a doenças e mudanças ambientais. Inserir alelos “perdidos” ou sintéticos pode reverter essa fragilidade sem precisar translocar indivíduos entre ilhas.
O precedente do lobo-terrível e o alerta dos especialistas
Antes do dodô, a Colossal anunciou o nascimento de três lobos com pelagem clara, apresentados como “lobos-terríveis” recriados a partir do lobo-cinzento. A divulgação gerou repercussão massiva, mas também uma resposta formal da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Doze especialistas em canídeos assinaram carta aberta questionando a narrativa. Para o grupo, não há evidência fenotípica de que os animais sejam distintos do lobo-cinzento ou similares ao ancestral pré-histórico. O risco, segundo eles, é criar a ilusão de que a extinção é reversível com um cheque e um laboratório.
O argumento central: confiar na “resurreição” tecnológica pode desviar recursos e urgência da proteção de habitats intactos. Ecossistemas não se reconstroem apenas com o retorno de uma espécie-chave; exigem solo, clima, presas e interações que levam milênios para se estabilizar.
O que observar nos próximos passos
A validação científica do projeto do dodô dependerá de publicações em periódicos com revisão por pares, não apenas de comunicados corporativos. Para o mercado, o marco relevante será a demonstração de que a edição germinativa em aves funciona em escala — algo ainda não comprovado em mamíferos, quanto mais em aves.
Enquanto isso, a estratégia de capital da Colossal continua atrelada ao storytelling de espécies icônicas. Mamute, tigre-da-tasmânia e agora dodô funcionam como vitrines para atrair rodada série D e parcerias com governos interessados em biobancos nacionais. O empresário que acompanha o setor deve monitorar: a tecnologia de edição multiplex está amadurecendo, mas a entrega ecológica real — populações viáveis na natureza — continua no campo da promessa.
