Políticos prometem abrir as torneiras do crédito, mas o efeito colateral pode atingir em cheio quem precisa financiar a produção. A equação é simples: mais demanda por dinheiro emprestado empurra os juros para cima.
O presidente Lula defendeu recentemente a “maior política de crédito que o país já conheceu”. Do outro lado, Flávio Bolsonaro e sua assessora Daniella Marques apontam a Caixa como vetor de expansão. Ambos partem da mesma premissa: bastaria vontade política para multiplicar o crédito disponível.
A armadilha da analogia das laranjas
Imagine um subsídio para compra de laranjas. A demanda sobe, o preço sobe e o produtor planta mais. A oferta responde. Agora tente o mesmo com quadros de Tarsila do Amaral. A pintora morreu há 53 anos. A demanda explode, mas a oferta é zero. Resultado: preços nas alturas, quantidade inalterada.
O crédito comporta-se mais como os quadros do que como as laranjas. A oferta de recursos vem de três fontes: poupança das famílias, superávit do governo (impostos menos gastos) e capital externo. Nenhuma delas é elástica o bastante para acompanhar um estímulo artificial de demanda.
O que acontece quando a demanda por crédito salta
Juros sobem. É o preço do dinheiro. Famílias poupam pouco mais mesmo com Selic a 15% — ninguém muda o planejamento doméstico por dois pontos percentuais. Empresas, porém, cancelam projetos. Um investimento viável a 13% real deixa de sê-lo a 15%. O crédito encolhe justamente onde gera emprego e produtividade.
- Famílias: sensibilidade baixa à taxa de juros
- Empresas: cortam investimentos com alta de 2 p.p. na taxa real
- Governo: promete expandir crédito, mas evita falar em corte de gastos
- Capital externo: entra, mas não o bastante para segurar os juros
O elo perdido: o ajuste fiscal que ninguém assume
Candidatos tratam gastos públicos e taxa de juros como gavetas separadas. Não são. Se o governo gasta mais do que arrecada, precisa captar no mercado. Isso compete diretamente com empresas por recursos escassos. A conta fecha com juros mais altos.
O fluxo estrangeiro ajuda, mas tem limite. Se bastasse subir juros para atrair capital ilimitado, a Selic não precisaria permanecer elevada por tanto tempo. O prêmio de risco do Brasil cobra seu preço.
O balanço final: expansão líquida ou substituição?
Programas direcionados podem até aumentar o crédito para setores escolhidos — habitação, agronegócio, microempreendedores. Mas o custo é o crédito que deixa de ir para a indústria, para inovação, para expansão de capacidade. É uma troca, não uma criação.
A expansão líquida depende quase inteiramente de quanto o país se endivida lá fora. Uma aposta arriscada em cenário de incerteza global e dólar volátil.
O que observar daqui para frente
Fique atento a três sinais nos próximos meses: (1) se propostas de crédito vêm acompanhadas de metas críveis de resultado primário; (2) como o mercado precifica a curva de juros longo após anúncios de programas; (3) se o investimento privado reage ou recua. Prometer quadros de Tarsila é fácil. Entregar laranjas exige poupança real — e isso ninguém gosta de discutir em palanque.
