Economia

R$ 72 bi no agro: salários sobem, mas estes profissionais viram renda cair

Trabalhadores rurais em lavoura com gráfico salarial do agro: R$ 72 bi e desigualdade de renda
Massa salarial do agronegócio chega a R$ 72 bi no 2º tri, mas rendimento de alguns profissionais recua.

A massa salarial do agronegócio atingiu R$ 72 bilhões no segundo trimestre, alta de 2,5% em um ano, puxada por ganhos reais expressivos para empregados e patrões. No entanto, um grupo significativo viu o rendimento encolher no mesmo período.

O rendimento médio real subiu 3,7%, chegando a R$ 2.972, mas a divisão desse bolo revela desigualdades setoriais que todo gestor e investidor precisa monitorar.

A nova radiografia da renda no campo

Dados do Cepea e da CNA mostram que os empregados formais ficaram com R$ 46 bilhões da massa total (alta de 2,8%), enquanto os empregadores embolsaram R$ 9 bilhões, com o maior avanço proporcional: 7,9%.

O restante coube aos trabalhadores por conta própria, única categoria a registrar queda real no período.

Quem ganhou e quem perdeu no último ano

Na pecuária, o bom momento do ciclo do boi permitiu aumento real de 8% para os empregados, contrastando com os 4,4% da agricultura (R$ 2.154/mês). Ainda assim, o salário médio no gado permanece inferior ao da lavoura.

No topo da pirâmide, os empregadores da agricultura viram a renda saltar 14,5% (R$ 8.615), contra 5,7% na pecuária (R$ 8.961). Já os autônomos amargaram retração de 3,1%, sinalizando pressão de custos ou menor demanda por serviços terceirizados.

  • Empregados (carteira assinada): 9,88 milhões (+0,5%)
  • Sem carteira: 4,2 milhões (-1,7%)
  • Total ocupado: Recorde de 28,28 milhões
  • Participação feminina: 38% da força de trabalho

Escolaridade sobe; informalidade recua

O perfil da mão de obra muda rápido. A população ocupada sem instrução caiu 3,3%, embora ainda some 1,44 milhão de pessoas (5% do setor). Em contrapartida, profissionais com nível superior (completo ou incompleto) avançaram 5,4%, totalizando 4,94 milhões — agora 17% do contingente.

A formalização avança devagar: a carteira assinada cresceu 0,5%, enquanto o trabalho sem registro recuou 1,7%. O movimento sugere transição estrutural, não apenas sazonal.

Onde estão os postos de trabalho

Dois segmentos concentram a geração de vagas:

  • Agrosserviços: 10,6 milhões de ocupados
  • Primário (dentro da porteira): 7,8 milhões

Dentro da produção primária, a bovinocultura lidera com 1,73 milhão de trabalhadores. O café, em plena safra no trimestre, empregava 788 mil, seguido pela horticultura (531 mil).

Boi gordo puxa alta e se aproxima de recorde histórico

A arroba atingiu R$ 380, acumulando 4,4% de alta no mês. A escalada começou em setembro, sustentada pela oferta restrita de animais terminados. Mesmo com o fim da cota extra de 55% para a China, os preços não cederam.

O patamar atual revisita o pico nominal de meados de novembro de 2020. Corrigido pela inflação, aquele teto seria R$ 385 hoje — a apenas R$ 5 de distância.

Arroz dá trégua após pico histórico

Após tocar R$ 83 a saca na primeira semana do mês no Rio Grande do Sul, o cereal recuou para R$ 82. O alívio reflete a entrada de nova safra e logística mais fluida, mas o patamar permanece elevado historicamente.

O que observar daqui para frente

A combinação de massa salarial recorde, qualificação crescente e aperto na oferta de bovinos desenha um cenário de custo de mão de obra pressionado para 2025. Gestores devem calibrar contratações e investimentos em automação considerando que a informalidade cai, a escolaridade sobe e o ciclo do boi ainda tem fôlego para sustentar margens — mas não sem riscos climáticos e cambiais no radar.