A Volkswagen viu seu primeiro SUV nascido da aliança com a Xpeng, o ID. UNYX 08, emplacar média de 267 unidades por mês entre abril e agosto. A meta interna era 3.622 — um abismo de 93% que expõe a fragilidade da maior reestruturação dos 89 anos da montadora.
O fracasso do lançamento não é um acidente de percurso; é o sintoma de uma crise que reduziu a contribuição da China ao lucro do grupo de quase 50% para cerca de 10%. O que está em jogo agora é a sobrevivência da marca no maior mercado automotivo do planeta.
O choque de realidade nos números
Dados da consultoria ThinkerCar mostram que, no mesmo período em que a VW entregou cerca de 1.300 unidades do UNYX 08, rivais chineses decolaram. A Xiaomi vendeu quase 57 mil unidades do YU7 e a Zeekr, mais de 21 mil do 7X. Ambos custam o mesmo — cerca de US$ 34 mil —, mas oferecem sensores avançados e carregamento ultrarrápido que o modelo alemão não tem.
“Por que comprar um carro alemão caro se podem obter a tecnologia por um preço muito menor?”, resume Pedro Pacheco, VP de pesquisa da Gartner. A pergunta resume o dilema: o consumidor chinês não paga prêmio por marca quando a tecnologia local é superior.
O erro de distribuição que escondeu o produto
O produto ruim encontrou uma rede pior. A VW optou por vender o UNYX 08 apenas pela Volkswagen Anhui, operação nova e focada em elétricos, com 166 pontos de venda. Ignorou a rede de mais de 3.000 concessionárias das joint ventures FAW e SAIC.
Resultado: dois fontes ouvidas pela Reuters confirmam que muitos consumidores sequer sabiam da existência do carro. A montadora admite que a rede está crescendo e que passou a integrar lojas da FAW-VW, mas o tempo perdido na largada é irrecuperável para o modelo atual.
Próximo capítulo: sedã UNYX 09 já nasce com metas cortadas
O sedã UNYX 09 chega às lojas este mês carregando a mesma pressão. Documentos internos revelam que a projeção para 2026 foi cortada em mais de 60%, caindo de 32,6 mil para 12,3 mil unidades. Mesmo assim, a meta para 2027 permanece agressiva: 64 mil veículos.
- Preço de lançamento do UNYX 08: ~US$ 34,26 mil
- Desconto atual: 17% (aplicado semanas após o lançamento)
- Meta original 2026 (UNYX 08): 32,6 mil unidades
- Meta revisada 2026: 12,3 mil unidades
Analistas ouvidos pela reportagem sugerem que metas infladas servem para aprovar projetos na matriz em Wolfsburg, criando um ciclo de promessas irreais e frustrações consecutivas.
Histórico de ‘casamentos e divórcios’ frustrados
A parceria com a Xpeng é apenas o capítulo mais recente de uma estratégia interna apelidada de “casamento e divórcio”: aliar-se a locais, absorver conhecimento e sair. O problema é que os “divórcios” deixaram cicatrizes.
A VW tentou a BYD (rejeitada), perdeu a Leapmotor para a Stellantis, viu o projeto de carros voadores virar disputa judicial e a joint venture de recarga Du-Power terminar em processos por falta de pagamento. Em todos os casos, a velocidade de execução chinesa superou a capacidade de integração alemã.
Mercado encolhe e margens derretem: o aviso do CEO
Em mensagem interna de setembro, o CEO na China, Ralf Brandstaetter, descreveu uma contração “excepcional”: queda de 20% no mercado de passeio (4,5 milhões de veículos a menos), margens de 1,5% e ciclos de desenvolvimento caindo de sete para três anos.
Ele ordenou ajuste de capacidade produtiva e eliminação de duplicidades entre marcas. A participação de mercado, que era de 20% em 2019, caiu para 10% nos primeiros oito meses de 2024. A comparação com Nokia, Kodak e BlackBerry, feita por um ex-executivo da VW, deixa de ser metáfora para virar risco real.
O que observar daqui para frente
A Volkswagen ainda tem caixa, marca e estrutura industrial para reagir, mas a janela está fechando. Três sinais dirão se a virada é possível nos próximos trimestres: a aceitação real do UNYX 09 sem depender de descontos agressivos, a integração efetiva da rede Anhui às 3.000 lojas das JVs e a capacidade de lançar arquiteturas elétricas nativas em 18 meses — prazo que a Xpeng ajudou a atingir, mas que precisa virar rotina, não exceção. Se o mercado chinês continuar acelerando enquanto a VW negocia internamente, o “divórcio” final pode ser a irrelevância.
