Economia

Simples Nacional: correção de tabelas pode criar 1,4 mi de empregos até 2026…

Gráfico mostra projeção de 1,4 milhão de empregos gerados pela correção das tabelas do Simples Nacional até 2026
Estudo aponta que atualização das faixas do Simples pode criar 1,42 milhão de vagas formais e injetar R$ 24,6 bi anuais.

Um estudo inédito revela que atualizar as faixas de faturamento do Simples Nacional — travadas há oito anos — tem potencial para injetar R$ 24,6 bilhões por ano nos cofres públicos e gerar até 1,42 milhão de vagas formais. O número surpreende porque parte de uma premissa contraintuitiva: renunciar arrecadação imediata para ganhar volume no médio prazo.

O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, já sinalizou que a revisão dos tetos para micro e pequenas empresas pode avançar ainda neste ano. A decisão, no entanto, depende de uma equação política e fiscal delicada.

O tamanho do congelamento e o custo da inércia

Desde 2018, os limites de enquadramento no regime não sofrem correção inflacionária. Na prática, empresas que cresceram nominalmente foram empurradas para regimes mais complexos e onerosos, o chamado “efeito cruzamento de faixa”.

O levantamento, conduzido pelo economista Gustavo Inácio de Moraes (PUC-RS) em parceria com o SINDHA-RS, simulou dois cenários de recomposição: pelo IPCA e pelo IGP-DI. Este último, mais aderente aos custos reais dos insumos, projeta o impacto mais robusto.

Dois cenários, uma conclusão: o investimento se paga

Os números brutos assustam à primeira vista. A renúncia fiscal inicial ficaria entre R$ 71 bilhões (IPCA) e R$ 88 bilhões (IGP-DI). Mas o estudo aponta o “ponto de virada”: a dinamização da economia compensaria o buraco em aproximadamente três anos e meio.

Como isso acontece na prática? A pesquisa detalha a cadeia de efeitos:

  • Consumo intermediário: empresas compram mais insumos e serviços;
  • Contratação: expansão da folha de pagamento em R$ 42,1 bilhões;
  • Lucratividade: alta de R$ 33,4 bilhões no resultado das companhias;
  • Arrecadação líquida: ganho anual de até R$ 24,6 bi em tributos diretos e indiretos.

Onde os empregos vão nascer

Não é uma distribuição uniforme. A projeção indica que as vagas se concentrarão em profissionais de 30 a 39 anos, com ensino médio completo. Setores intensivos em mão de obra e já dominantes no Simples lideram o potencial de absorção:

  • Alimentação e hospedagem;
  • Serviços pessoais;
  • Atividades veterinárias;
  • Comércio varejista e atacadista.

Nesses segmentos, mais de 60% dos postos formais já estão atrelados a optantes do regime. Hoje, o Simples responde por 29% do emprego formal brasileiro — cerca de 13,4 milhões de trabalhadores distribuídos em 23 milhões de empresas.

O gatilho político: o precedente do MEI

A janela de oportunidade abriu com a aprovação do PLP 186/2026, que eleva o teto do MEI para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. A medida quebrou o tabu da intocabilidade dos limites e colocou a revisão das microempresas (teto atual de R$ 360 mil) e empresas de pequeno porte (R$ 4,8 milhões) na mesa de negociação.

Segundo o ministro, a intenção é acelerar o debate para que a correção vigore ainda em 2026. Estima-se que 6,2 milhões de CNPJs seriam beneficiados diretamente pela ampliação das faixas.

O que observar daqui para frente

O entrave principal continua sendo a compensação fiscal de curto prazo. O governo precisará demonstrar como cobre o rombo inicial de até R$ 88 bilhões sem ferir as metas de resultado primário.

Para o empresário, o sinal prático é claro: planejar o crescimento assumindo a possibilidade de novos tetos evita a “armadilha do desenquadramento”. Quem está próximo do limite hoje deve modelar cenários de migração para o Lucro Presumido ou Real, mas manter a estrutura preparada para permanecer no Simples caso a correção seja sancionada. A definição do índice de correção — IPCA ou IGP-DI — será o termômetro real do fôlego que o regime terá nos próximos anos.