Produtores de maçã do Sul do Brasil estão fechando contratos emergenciais de aluguel de colmeias para blindar a polinização da nova safra. O inverno rigoroso criou condições ideais de florada, mas o El Niño traz um risco que nenhuma tecnologia resolve: chuva excessiva na hora exata em que as abelhas precisam voar.
O resultado dessa corrida contra o tempo será conhecido nas próximas semanas, quando os primeiros frutos fixarem — ou caírem — nos pomares.
O inverno que mudou o jogo
As macieiras exigem um período de dormência para reiniciar o ciclo produtivo. Nesta temporada, o acúmulo de horas de frio nas regiões de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná superou a média histórica. O resultado: brotação uniforme, vigorosa e com potencial de florada acima do padrão.
Em números: a safra 2025/2026 fechou em 1,6 milhão de toneladas, quase o dobro das duas temporadas anteriores e novo recorde histórico. Santa Catarina respondeu por 830 mil toneladas, seguida pelo Rio Grande do Sul com 710 mil.
Quando a chuva vira inimiga
O problema surge agora. O El Niño forte provoca volumes de chuva contínuos justamente durante a janela de polinização. Abelhas não voam sob precipitação intensa — e dias seguidos de tempo fechado reduzem drasticamente a fecundação das flores.
Sem polinização, não há fixação de frutos. Sem frutos, não há safra.
A aposta milionária nas abelhas
Para driblar a imprevisibilidade climática, produtores aumentaram significativamente o volume de colmeias alugadas nos pomares. A estratégia é simples: saturam a área com polinizadores para aproveitar ao máximo cada “janela de tempo bom” entre uma chuva e outra.
- Cenário normal: 3 a 4 colmeias por hectare
- Cenário 2026/2027: até 6 a 8 colmeias por hectare em áreas de risco
- Janela crítica: 10 a 15 dias de florada plena
O custo extra é absorvido no orçamento da safra como seguro contra perdas totais.
O que os números da safra passada revelam
O otimismo atual tem base concreta. As exportações saltaram de 13 mil para 48,6 mil toneladas em 2026, gerando US$ 49,6 milhões. A fruta chegou a mais de 25 países — Índia (18,1 mil t) e Arábia Saudita (10,1 mil t) lideraram as compras.
Mas a meta era 100 mil toneladas. A guerra no Oriente Médio travou rotas logísticas, criou sobreoferta em mercados alternativos e limitou o escoamento. Lição aprendida: depender de poucos destinos é arriscado.
Para onde vão as maçãs brasileiras
A abertura de mercados no México e na Malásia é prioridade estratégica para 2027. Diversificar destinos equilibra o mercado interno, que absorve cerca de 1 milhão de toneladas/ano. Com a supersafra, a participação nacional no consumo subiu de 66% (em anos de quebra) para mais de 85% — e os preços ao consumidor caíram.
O que observar até a colheita
A colheita das variedades Gala e Fuji começa no primeiro trimestre de 2027. Até lá, três variáveis definem o desfecho:
- Índice de fixação de frutos (medição nas próximas semanas)
- Distribuição de chuvas durante o enchimento dos frutos
- Ausência de granizo e geadas tardias
Se o clima colaborar nas próximas fases, o Brasil pode repetir — ou até superar — o volume recorde. Mas a conta só fecha se as abelhas alugadas cumprirem seu papel nos poucos dias secos que o El Niño permitir.
