O agronegócio brasileiro registrou 448 pedidos de recuperação judicial no segundo trimestre, uma queda de 20,7% frente ao mesmo período do ano anterior. É a primeira retração para um segundo trimestre desde 2022, mas especialistas alertam: o cenário ainda exige cautela.
Os dados, compilados pela Serasa Experian, mostram também recuo de 5,5% na comparação com os primeiros três meses de 2026. A dúvida que fica é se a tendência se sustenta ou se trata apenas de um alívio sazonal.
O que explica a queda nos números
Segundo Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, três fatores principais podem ter puxado a redução. A entrada de receitas da safra em parte das regiões, a sazonalidade natural das atividades no campo e o avanço nas renegociações diretas com credores.
Produtores rurais como pessoa física protocolaram 197 pedidos, queda de 10,5% no comparativo anual. Já as pessoas jurídicas recuaram 34,2%, somando 160 solicitações. A diferença de intensidade sugere que empresas estruturadas conseguiram renegociar dívidas com mais agilidade.
Mapa dos estados e atividades mais afetados
Mato Grosso manteve a liderança isolada, com 107 registros. O estado concentra a maior produção de grãos e gado do país, o que expõe os produtores a ciclos de endividamento mais intensos.
- Goiás: 84 pedidos
- São Paulo: 72 pedidos
- Minas Gerais: 54 pedidos
- Paraná: 42 pedidos
No recorte por atividade, a soja — principal commodity de exportação — liderou com 70 solicitações. A criação de bovinos apareceu em segundo, com 28 casos. A concentração em poucos setores reforça a vulnerabilidade a choques de preço e câmbio.
Perfil dos produtores endividados chama atenção
Um dado relevante aparece na análise por porte. Produtores classificados como “sem propriedades” — geralmente arrendatários — concentraram 70 pedidos. Grandes proprietários vieram na sequência, com 51.
Pequenos e médios proprietários somaram 39 e 37 registros, respectivamente. A presença forte de arrendatários no topo da lista sinaliza que o risco não está apenas na posse da terra, mas na estrutura de custos de quem aluga áreas para plantar.
Crédito seletivo e custos altos mantêm alerta ligado
Apesar da queda, Pimenta reforça que o ambiente segue desafiador. Os custos de insumos permanecem elevados e o crédito continua mais seletivo, especialmente para perfis de maior risco.
Essa combinação impede uma comemoração antecipada. A renegociação extrajudicial pode ter apenas postergado o problema para quem não conseguiu equalizar o fluxo de caixa.
O que observar nos próximos trimestres
A sustentabilidade da queda depende de duas variáveis: o comportamento dos preços das commodities no segundo semestre e a disposição dos bancos em alongar prazos. Se a receita não cobrir o custo de produção, a curva de pedidos pode voltar a subir já no terceiro trimestre. Acompanhar a taxa de inadimplência das operações de custeio será o termômetro mais preciso para investidores e gestores de risco.
