Internacional

Brasileiro indocumentado vira cidadão e desafia reduto republicano na Flórida

Felipe Sousa Lazaballet, candidato brasileiro à Câmara da Flórida, sorri em retrato de campanha
Brasileiro indocumentado que virou cidadão disputa vaga histórica na Câmara da Flórida pelo Distrito 42

Felipe Sousa Lazaballet, 40 anos, disputa uma cadeira na Câmara da Flórida pelo Distrito 42 — um território republicano na região de Orlando. Se vencer em 3 de novembro, será o primeiro brasileiro e o primeiro imigrante abertamente gay a ocupar o cargo. A trajetória até aqui, porém, não segue nenhum roteiro convencional.

Filho de mãe solo e empregada doméstica cearense, ele chegou aos EUA aos 14 anos com visto de turista. O documento venceu. O sonho de faculdade parecia morto. O que aconteceu nos 26 anos seguintes transforma uma história de imigração em caso raro de ascensão política.

O muro aos 16 anos e a porta que se abriu

No ensino médio, um orientador foi direto: sem status legal, não haveria universidade. Meses de desânimo se seguiram até que um conhecido da igreja brasileira indicou o Miami Dade College. Naquela época, a instituição aceitava estudantes indocumentados — política que não existe mais.

Felipe cursou relações internacionais. Foi lá que entendeu a dimensão do próprio status. O debate sobre os dreamers — jovens levados aos EUA na infância — ganhava força nacional. Ele entrou no movimento em 2006.

1.500 km a pé para ser visto

Em 2010, Felipe e outros jovens organizaram a Trail of Dreams: uma marcha de janeiro a maio, da Flórida a Washington, cobrando legalização. Foram cinco meses caminhando sob o primeiro governo Obama, então visto como aliado da causa.

O projeto falhou no Congresso. Dois anos depois, Obama criou o DACA por decreto: proteção temporária de dois anos, renovável, com autorização de trabalho. Felipe, com 26 anos, se enquadrou. Hoje, 2.990 brasileiros mantêm o benefício — sétima nacionalidade no ranking, atrás de mexicanos (356 mil), salvadorenhos, guatemaltecos, hondurenhos, peruanos e sul-coreanos.

Do ativismo à gestão de crise

Após breve passagem por Nova York, voltou à Flórida em 2016 para a Prefeitura de Orlando. Em junho daquele ano, o massacre na boate Pulse — 49 mortos no maior ataque anti-LGBTQIA+ da história dos EUA — colocou Felipe na linha de frente do acolhimento a sobreviventes e famílias.

Depois, assumiu a liderança da Hope CommUnity Center, organização de apoio a imigrantes. Conquistou o green card e, em 2021, a cidadania americana.

O convite que mudou a rota

Em 2025, a deputada democrata Anna Eskamani — filha de imigrantes iranianos, nascida nos EUA — o procurou. Termos-limite a impediam de buscar reeleição após quatro mandatos. O distrito 42 é majoritariamente republicano, mas tem população latina expressiva.

Segundo Felipe, Anna disse que sua história “falava por si só” e que a atuação constante pelos mais marginalizados — tendo sido um deles — conferia a credibilidade necessária.

O que observar daqui para frente

A eleição de 3 de novembro testará se uma biografia de superação atravessa a polarização partidária na Flórida. O Distrito 42 não elege democrata há ciclos. Mas o perfil do eleitorado — diverso, urbano, com forte presença de imigrantes — cria uma variável difícil de precificar nas pesquisas.

Para quem acompanha a política americana ou atua em relações governamentais, o caso sinaliza algo além do resultado individual: a entrada de lideranças com trajetória migratória completa — da irregularidade à cidadania ativa — em espaços de poder estadual. O desfecho dirá se esse caminho se tornará tendência ou exceção.