Felipe Sousa Lazaballet, 40, nascido em Duque de Caxias (RJ), concorre a uma cadeira na Câmara dos Deputados da Flórida pelo Distrito 42 — região metropolitana de Orlando — nas eleições de 3 de novembro. Se eleito, será o primeiro brasileiro e o primeiro imigrante abertamente gay a ocupar o cargo em um legislativo estadual historicamente republicano.
A trajetória que o levou até aqui condena qualquer rótulo simplista. Filho de mãe solo e empregada doméstica cearense, entrou nos EUA aos 14 anos com visto de turista e permaneceu após o vencimento. Por mais de uma década, viveu na irregularidade.
O bloqueio universitário e a porta que se abriu
Aos 16 anos, o orientador escolar foi direto: sem status migratório regular, não haveria universidade. O sonho do ensino superior parecia encerrado até que um conhecido da comunidade brasileira indicou o Miami Dade College — uma das poucas instituições que, à época, aceitava estudantes indocumentados.
Formou-se em relações internacionais. Nesse período, o debate sobre os dreamers — imigrantes trazidos na infância — ganhava força nacional. Felipe não apenas acompanhou: ajudou a construir.
A marcha de 1.500 km que colocou o tema no mapa
Em 2010, durante o primeiro governo Obama, ele e outros jovens na mesma condição organizaram a Trail of Dreams: uma caminhada a pé da Flórida a Washington, D.C., cobrindo 1.500 km em cinco meses (janeiro a maio). O objetivo era pressionar pela legalização dos dreamers.
A mobilização não aprovou o projeto no Congresso imediatamente, mas pavimentou o caminho para o DACA (Ação Diferida para Chegadas na Infância), criado por decreto em 2012. Felipe, então com 26 anos, se enquadrou nos critérios e obteve proteção temporária e autorização de trabalho renováveis por dois anos.
Números do DACA: onde os brasileiros se encaixam
- 436 mil beneficiários atuais no total
- 2.990 brasileiros — 7ª nacionalidade mais representada
- Líderes: mexicanos (356 mil), salvadorenhos, guatemaltecos, hondurenhos, peruanos, sul-coreanos
O programa não resolveu a cidadania, mas deu fôlego. Felipe seguiu na advocacia migratória, passou por Nova York e retornou à Flórida em 2016 para atuar na Prefeitura de Orlando.
Tragédia, liderança comunitária e a virada de chave
Junho de 2016: o massacre na boate Pulse, em Orlando, deixou 49 mortos no maior ataque contra a comunidade LGBTQIA+ da história dos EUA. Felipe trabalhou no suporte a sobreviventes e familiares. Meses depois, assumiu a direção do Hope CommUnity Center, organização de apoio a imigrantes.
Casou-se, obteve o green card e, em 2021, a cidadania americana. A transição de indocumentado a eleitor elegível levou duas décadas.
O convite que mudou a equação política
Em 2025, a deputada democrata Anna Eskamani — filha de imigrantes iranianos, nascida nos EUA e no quarto mandato consecutivo (limite legal local) — o convidou para disputar a sucessão no Distrito 42. O argumento: a história dele “fala por si” e a atuação junto a populações marginalizadas confere credibilidade rara.
“Minha mãe sempre me ensinou a importância da educação, do trabalho duro, da honestidade”, resume Felipe, a um mês das midterms.
O que observar daqui para frente
O Distrito 42 abriga uma demografia em transformação: crescimento latino, concentração de imigrantes brasileiros e alta participação eleitoral em ciclos presidenciais — as midterms costumam reduzir o comparecimento. A capacidade de Felipe mobilizar bases tradicionalmente pouco representadas (imigrantes naturalizados, comunidade LGBTQIA+, trabalhadores de serviços) será o termômetro real da viabilidade eleitoral.
Para investidores e analistas de risco político na Flórida, a candidatura sinaliza duas tendências: a ascensão de lideranças com biografia migratória direta em cargos legislativos e o teste de até onde o eleitorado suburbano de Orlando aceita perfis que rompem o molde histórico do Capitólio estadual em Tallahassee.
Acompanhe a arrecadação de campanha nos próximos relatórios trimestrais e o comparecimento nas primárias democratas — indicadores antecipados de competitividade real no distrito.
