O presidente Luiz Inácio Lula da Silva resumiu sua receita econômica em uma frase: “o que faz a economia crescer é a microeconomia”. A lógica é simples — colocar dinheiro na mão do povo, girar o comércio, encher as fábricas e gerar empregos. Mas há um detalhe que ninguém conta: esse roteiro tem data de validade.
O modelo descrito pelo presidente é, na essência, o keynesianismo clássico. Quando há máquinas paradas e gente desempregada, o gasto público puxa a demanda e a economia responde com produção real. Não há mágica: o crescimento vem da ociosidade que já existia.
Quando a história funciona — e quando trava
Imagine uma padaria com forno frio e balcão vazio. Se o governo injeta renda no bairro, o movimento aumenta, o padeiro liga o forno, contrata ajudante e a riqueza cresce. O problema surge quando o forno já está no limite, a fila dobra a esquina e não há mais farinha no depósito.
Nesse ponto, cada real a mais não compra mais pão — só eleva o preço. Foi exatamente isso que John Maynard Keynes alertou em 1937, num artigo para o Times de Londres: a economia britânica havia deixado de ter “recursos excedentes amplamente distribuídos”. Estimular a demanda ali só geraria inflação.
O Brasil de hoje lembra a Inglaterra de 1937?
Os sinais estão na mesa:
- Capacidade instalada da indústria próxima de 80% — patamar que costuma apertar a oferta;
- Desemprego em torno de 6,8%, nível historicamente baixo;
- Juros reais elevados para conter a pressão de preços;
- Dívida pública acima de 75% do PIB, limitando novos estímulos fiscais.
Quando a ociosidade some, a “parábola do dinheiro na mão do povo” para de gerar produção e passa a gerar apenas disputa por bens escassos. O resultado aparece no IPCA e na taxa Selic.
O outro Keynes que o Planalto precisa ler
Keynes não era um homem de uma nota só. Em 1937, ele escreveu: “É quando a demanda crescente já não é capaz de elevar significativamente a produção e o emprego, esgotando-se principalmente na elevação dos preços, que se pode propriamente falar em inflação”.
A tradução prática: há momento para acelerar e momento para frear. A genialidade do economista britânico estava em reconhecer que a estrutura da economia enrijece — setores não se expandem na mesma velocidade, regiões não absorvem mão de obra da mesma forma.
No Brasil atual, o setor de serviços puxa emprego, mas a indústria patina. Construção civil aquece no Sul, enquanto o Nordeste ainda tem bolsões de informalidade. Um estímulo genérico atinge setores cheios e deixa vazios os que precisam.
O que observar daqui pra frente
O teste real não é ideológico — é aritmético. Se o governo mantiver o pé no acelerador fiscal com a economia operando perto do teto, a conta chega via juros altos e inflação corroendo justamente a renda que se tentou proteger.
Fique atento a três indicadores nos próximos trimestres: evolução da taxa de capacidade instalada da indústria, ritmo de criação de vagas formais (Caged) e trajetória das expectativas de inflação no boletim Focus. Quando dois dos três piscarem amarelo ao mesmo tempo, a “microeconomia” do Planalto terá encontrado seu limite físico.
A lição de 1937 continua valendo: não existe almoço grátis depois que a cozinha está cheia.
