Tiago Vitor de Oliveira Ferreira e Felipe Henrique Alves de Souza, ambos com 14 anos, conquistaram o primeiro lugar na categoria nível 1 da Olimpíada Brasileira de Satélites (OBSAT) com um equipamento que cabe na palma da mão e custa menos que um videogame usado. O feito coloca Limeira, no interior de São Paulo, no mapa da nova engenharia aeroespacial brasileira. Mas o troféu é apenas o começo.
A dupla superou as três primeiras fases da competição — relatório técnico, construção e lançamento estratosférico por balão meteorológico — e agora se prepara para a etapa suborbital. O segredo não está no orçamento, mas na proposta: tornar a tecnologia espacial acessível para qualquer sala de aula.
O satélite que cabe numa latinha e custa R$ 299
Batizado de EduSat, o dispositivo segue o padrão CanSat: um satélite miniaturizado do tamanho de uma lata de refrigerante, com menos de 60 centímetros de altura. Apesar das dimensões reduzidas, ele cumpre o ciclo completo de uma missão espacial real.
- Coleta e armazena dados de sensores embarcados
- Transmite informações em tempo real para estação terrestre
- Registra imagens durante o voo
- Permite análise posterior de todos os parâmetros
O custo total de produção? R$ 299. Um valor deliberadamente baixo para viabilizar a replicação em escolas públicas, de onde Tiago veio e onde a dupla quer fazer a diferença.
Da curiosidade infantil à engenharia de precisão
Tudo começou com um carrinho quebrado aos cinco anos. Tiago abriu o brinquedo para entender por que parou de funcionar e nunca mais parou de desmontar coisas. Felipe seguiu caminho parecido. Ambos mergulharam em olimpíadas acadêmicas oferecidas pela escola e, no meio de 2023, decidiram encarar a OBSAT.
A construção exigiu domínio de eletrônica, programação, física atmosférica e gestão de projetos. Testes de vibração, magnetismo e resistência térmica antecederam o lançamento com balão meteorológico a 28 quilômetros de altitude — a chamada “terceira fase”. O equipamento passou horas coletando dados na estratosfera antes de retornar (quase sempre) intacto.
Por que isso importa para quem investe em educação e inovação
O Brasil forma engenheiros, mas perde talentos antes da universidade por falta de acesso prático a tecnologias de ponta. O EduSat ataca essa lacuna com três frentes simultâneas:
- Hardware open-source: esquemas e código disponíveis para replicação
- Material didático: apostilas estruturadas para oficinas escolares
- Agente de IA educacional: assistente programado para responder dúvidas de alunos com linguagem lúdica e acolhedora
O lema “Toda Criança Pode Ser Um Cientista” não é slogan — é especificação de produto. A IA, por exemplo, foi treinada para explicar conceitos de telemetria e mecânica orbital sem jargão, transformando barreiras técnicas em convites à experimentação.
O que observar nos próximos meses
A quarta fase da OBSAT exige adaptação do protótipo para lançamento suborbital, com parâmetros mais rigorosos e ambiente mais hostil. Se a dupla avançar, o EduSat ganhará certificação de voo espacial real — um atestado raro para equipamento de custo tão baixo.
Em paralelo, Tiago e Felipe já articulam parcerias com secretarias de educação e feiras de ciência para levar oficinas a escolas públicas ainda em 2024. Cada oficina custa fração do orçamento tradicional de laboratórios de robótica e entrega resultado tangível: alunos construindo e lançando seus próprios satélites.
Para gestores de fundos de inovação, incubadoras e formuladores de política pública, o caso sinaliza algo claro: a barreira de entrada para tecnologia aeroespacial no Brasil caiu de milhões para centenas de reais. Resta saber quem vai escalar primeiro.
