O boom de US$ 10 trilhões em infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos está rachando sob o peso de dívidas caras, obras paradas e uma onda de resistência local. Analistas calculam que apenas 35% dos projetos anunciados têm viabilidade real — e o dinheiro fácil que alimentou a corrida acabou.
O que era descrito como um “Velho Oeste” regulatório agora enfrenta a realidade: 47 grandes empreendimentos foram adiados, cancelados ou bloqueados apenas em 2024, segundo a RegLayer. Mais de mil comunidades americanas tentam barrar ou restringir novas instalações. A conta chegou.
O fim do dinheiro barato mudou o jogo
Juros altos e a deterioração do mercado de títulos públicos secaram a torneira que financiava a expansão. A CoreWeave, estrela do setor até semanas atrás, viu suas ações caírem 25% em dias. Seus bônus sem garantia entraram em território de alto risco, e um título de US$ 1,1 bilhão para um data center na Virgínia perdeu 5% do valor em três semanas.
Não é caso isolado. A SB Energy, do SoftBank, precisa de US$ 174 bilhões em capital para honrar contratos de US$ 430 bilhões — e ainda não entregou um único data center. Seus planos de IPO a US$ 50 bilhões foram engavetados. O mesmo aconteceu com a Firmus, a Nscale e a própria OpenAI.
- CoreWeave: ações -25% na semana; dívida em território “distressed”
- SB Energy: US$ 174 bi necessários, zero data centers operando
- Nscale: 25 mil chips instalados vs. 500 mil planejados
- Nebius: apenas 20% dos US$ 250 bi necessários financiados
Contratos blindados… mas até quando?
Grandes laboratórios como Anthropic e OpenAI aceitaram pagar prêmios por velocidade, fechando acordos com parceiros inexperientes. Mas inseriram cláusulas de saída caso prazos não sejam cumpridos. A Cipher Mining, ex-mineradora de cripto, precisou injetar US$ 750 milhões extras e emitir US$ 850 milhões em títulos conversíveis só para ajustar um contrato no Texas.
A Anthropic pode abandonar seu acordo de US$ 45 bilhões com a Nscale se marcos de financiamento e entrega na Virgínia Ocidental não forem batidos. O Stargate, projeto de US$ 500 bilhões da OpenAI, acumula licenças negadas, atrasos e a saída do chefe de computação, Sachin Katti.
Energia e licenças: os gargalos invisíveis
Reguladores de utilities estão negando conexões à rede elétrica a menos que os projetos tragam sua própria geração. Licenças de construção travam em dezenas de jurisdições. O economista Stijn van Nieuwerburgh estima que o setor demandará 3,6% do PIB americano ao ano entre 2025 e 2032 — proporção superior a ferrovias, rodovias ou eletrificação em seus auges.
Sam Altman apostou que “capacidade computacional é o destino”. O mercado começa a cobrar a fatura.
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se a bolha estoura ou apenas esvazia: a taxa de conversão de projetos anunciados em operacionais; o custo de captação das “neoclouds” nos próximos leilões de dívida; e a disposição dos hyperscalers (Google, Meta, Microsoft) em absorver capacidade ociosa caso parceiros menores quebrem. Quem tem caixa próprio e energia contratada sai na frente. Os demais dependem de um mercado de capitais que já fechou as portas.
