Economia

Cartas de Pokémon: como a nostalgia virou ativo de R$ 86 milhões

Carta Pikachu Illustrator rara em estojo protetor, leiloada por R$ 86 milhões
A carta de Pikachu mais valiosa do mundo, vendida por US$ 16,5 milhões em leilão recorde.

Uma única carta de Pikachu foi arrematada por US$ 16,5 milhões (R$ 86 milhões) em leilão recente, consolidando o jogo de cartas colecionáveis como uma classe de ativos alternativa de alto risco e alta liquidez — para quem sabe onde vender. O mercado, que movia 1,5 bilhão de unidades por ano antes de 2019, saltou para uma produção acumulada de 85 bilhões de cartas até março de 2026.

O fenômeno deixou de ser brincadeira de quintal. Adultos que cresceram na década de 1990 agora disputam caixas lacradas e exemplares raros com a mesma seriedade de investidores de arte ou criptomoedas. Mas a valorização não é automática: depende de nota de conservação, tiragem e, principalmente, de haver comprador do outro lado.

Do álbum de infância à entrada do imóvel

Diogo Pires, cofundador do marketplace Liga Pokémon, vendeu parte do acúmulo de duas décadas por US$ 20 mil em 2018. O recurso, somado a outras economias, financiou a compra da casa própria. “Guardar esse volume em casa virou risco patrimonial”, resume. A decisão reflete a mudança de mentalidade: o colecionador virou gestor de ativo.

No Brasil, a distribuidora oficial Copag abastece um mercado que acompanha a curva global. Dados do Google Trends mostram que o interesse por “Pokémon” nas buscas nacionais, entre setembro de 2021 e setembro de 2026, foi 60% superior ao quinquênio anterior. O pico recente supera até o lançamento de Pokémon Go, em 2016.

O motor da valorização: escassez certificada

Não basta ser antiga. A carta recordista — Pikachu Illustrator, de 1998 — teve apenas 39 cópias distribuídas como prêmio de concurso. O exemplar leiloado é o único conhecido com nota máxima (PSA 10), a certificação mais rigorosa do setor. Logan Paul, influenciador comprador original, pagou US$ 5 milhões em 2021; a revenda triplicou o valor em três anos.

No varejo, a dinâmica é outra. A maioria das cartas de expansões atuais vale centavos. Na Liga Pokémon, exemplares comuns são anunciados a partir de R$ 0,25. O ganho real está em identificar, antes do mercado, quais cartas entrarão no “meta” competitivo ou quais caixas lacradas terão tiragem curta.

  • Raridade e tiragem: produtos de lançamento ou edições limitadas (ex: caixa Base Set 2000 no Brasil, hoje cotada a R$ 9.000–10.000).
  • Condição física: cantos, bordas, superfície e centralização definem a nota (PSA, BGS, Manafix). Um defeito mínimo derruba o preço em dezenas de porcentuais.
  • Relevância competitiva: cartas que entram em decks campeões de torneios oficiais disparam de centavos para dezenas de reais em semanas.

Certificação nacional ganha espaço

A Manafix, empresa brasileira de grading, cobra a partir de R$ 75 por carta para autenticar e graduar. O selo local reduz custos e prazos de envio ao exterior, mas a aceitação internacional ainda é menor que a da PSA ou BGS. Para o investidor doméstico, porém, já funciona como lastro de credibilidade em marketplaces nacionais.

Henrique Heylmann, fundador da Manafix, alerta: a nota é fotografia do estado atual. Manuseio, umidade e armazenamento inadequado degradam o ativo. “Cofre seco e sleeve rígido não são opcional”, diz.

Onde mora o perigo para o investidor leigo

A educadora financeira Cássia D’Aquino traça a linha: comprar carta esperando valorização é aposta especulativa, não aplicação financeira. Dois pilares sustentam o risco:

  • Liquidez assimétrica: uma carta “valendo” R$ 10 mil pode levar meses para achar comprador a esse preço. A venda rápida exige desconto agressivo.
  • Ausência de fluxo de caixa: o ativo não paga dividendo nem juro. O retorno depende 100% de outro agente pagar mais no futuro.

Pires reforça: “Eu tive sorte de colecionar o que valorizou. Quem compra hoje sem conhecimento está apostando no escuro”.

O que observar nos próximos trimestres

Três variáveis ditam o ritmo do mercado até 2027: o calendário de expansões oficiais (a cada 2–3 meses), a entrada de novos colecionadores via influenciadores — Neymar e Thiago Nigro geraram picos de 175 mil espectadores simultâneos em lives de abertura de pacotes — e a maturação das empresas de grading nacionais.

Para o profissional de negócios, a lição é clara: o ativo “carta de Pokémon” comporta-se como collectible de nicho com liquidez fragmentada. Quem domina a curadoria (raridade, nota, meta competitivo) captura alpha; quem compra por impulso paga o prêmio de iliquidez. Monitorar relatórios da Circana (varejo EUA) e dados de produção da The Pokémon Company continua sendo o melhor termômetro de oferta versus demanda real.